UnB
 
:: Doutor Honoris Causa: Roberto Cardoso de Oliveira
 


Discurso de Agradecimento pelo Título de Doutor Honoris Causa proferido pelo Prof. Dr. Roberto Cardoso de Oliveira em 26/06/03

Magnífico Reitor, Professor Dr. Lauro Morhy
Senhor Vice-Reitor, Professor Dr. Timothy Martin Mulholland
Profª Dra. Ellen Woortmann, Diretora do Instituto de Ciências Sociais
Profª Dra. Elizabeth Cancelli, Diretora do CEPPAC
Professor Emérito Dr. Roque de Barros Laraia
Amigos, colegas e estudantes

Senhoras e senhores

Estar neste auditório na condição de homenageado é como renovar emoções vividas nos anos 70, quando aqui recebi o Prêmio Internacional pela Promoção do Entendimento Humano, concedido pela "Organização Internacional para a Eliminação de Todas Formas de Discriminação Racial" que, de Londres, enviava um emissário como portador da honraria que entendia que eu fizera jus pela publicação de meu livro A Sociologia do Brasil Indígena. Simultaneamente recebia o mesmo prêmio nos Estados Unidos, o escritor Edward Said, por seu celebrado livro Orientalismo: O oriente como invenção do ocidente. Mas é também um lugar que me emociona ainda mais já que neste auditório pude assistir a outras solenidades, onde amigos e colegas foram igualmente homenageados por seus feitos na esfera acadêmica e científica. Tudo isso me vem à memória! Porém, em uma cerimônia como esta, em que se recebe um título tão expressivo, como o de Doutor "Honoris Causa" – e antes de agradecer à instituição que o concede, não há como fugir de um breve retorno ao passado e de fazer algumas considerações sobre meu presente nesta Casa. Alguns acontecimentos me foram especialmente significativos no que diz respeito às minhas duas vindas à Universidade de Brasília – em 1972 e meu retorno em 1996 – que não há como deixar de evocá-los. Mas, desde já, prometo aos presentes não me alongar nessa retrospectiva.

Se ingressei nesta Casa em princípios do anos 70, quando de meu primeiro contrato, bem que poderia ter ingressado antes, ao tempo de sua fundação, já que em 1959 fui sondado por Darcy Ribeiro para vir a Brasília para reconstituir com ele e Eduardo Galvão o pequeno grupo de antropólogos que atuava na antiga capital do país, no Rio de Janeiro. Afinal de contas, havíamos trabalhado juntos no Serviço de Proteção aos Índios anos atrás. E estava eu, naquele ano, iniciando uma pesquisa junto aos índios Tükúna – e, em viagem para Manaus, de onde seguiria para a tríplice fronteira Brasil/Colômbia/Peru, fiz escala em Brasília. No aeroporto, esperava-me Berta Ribeiro. Tinha apenas algumas horas, pois meu vôo para a Amazônia sairia no fim da tarde e Berta estava ansiosa para mostrar o campus da UnB em febril construção. Não vi Darcy naquele dia, mas dele recebi, através de Berta, o convite antecipado para em futuro próximo incorporar-me à universidade que ele e Anísio Teixeira haviam planejado construir. Não me foi possível aceitar o convite nos primeiros anos da década de 60, já que estava envolvido no projeto da pós-graduação que haveríamos de implantar no Museu Nacional em 1960 – com o Curso de Especialização em Antropologia Social, uma pós-graduação lato sensu, na qual vários dos colegas, hoje também nesta universidade, realizaram sua especialização, como Roque de Barros Laraia, Alcida Rita Ramos e Júlio Cesar Melatti; um período em que eu ainda alimentava a expectativa de transformar aquela Especialização no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da UFRJ no mesmo Museu, alvo enfim alcançado em 1968, graças ao apoio irrestrito da Fundação Ford.

Mas todos esses acontecimentos não estiveram dissociados daquela perspectiva que anos atrás havia sido aberta por Darcy e Berta para meu engajamento nesta universidade. Em 1969 Roque Laraia era convidado para vir à UnB – logo seguido por Melatti – para colaborar com a retomada das atividades acadêmicas na área das Humanidades, em crise desde os acontecimentos de 65 e a conseqüente demissão de inúmeros docentes. É desnecessário dizer que a qualidade do trabalho de ambos nesses últimos quarenta anos foi, com toda a justiça, reconhecida por esta Casa com a concessão do título de Emérito ao se aposentarem. Mas devo dizer que para um Programa então recém criado, como o do Museu Nacional, a saída deles foi um desfalque para a equipe que então eu estava organizando. Porém, com a contratação de outros professores, ao cabo de cinco anos o PPGAS – sigla que se converteu em sua griffe – já começava a dar os seus primeiros frutos: as boas dissertações que começavam a surgir. Vi-me assim inesperadamente credenciado para organizar outras pós-graduações na minha disciplina, de modo que ainda no final dos anos 60 fui convidado pelo então Reitor Amadeu Cury a vir para cá com todos meus colegas; como ele me dizia: "traga toda a sua equipe que a UnB contratará todos"! Claro que não vieram todos: dividimos o grupo e uma parte ficou dando prosseguimento ao projeto de consolidação da pós-graduação com o curso de doutorado que em seguida seria instalado no Museu. E em 1971, quando estava eu realizando um estágio pós-doutoral na Universidade de Harvard, veio me procurar o então diretor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, o economista João Paulo de Almeida Magalhães, para fazer igual convite. Porém acabei vindo mesmo para a UnB, para só aceitar o convite da Unicamp 15 anos mais tarde, para nela me aposentar, tornar-me Emérito e retornar, enfim, à UnB, onde hoje me encontro. Agora não mais no Departamento de Antropologia, mas no Centro de Pesquisa e Pós-Graduação para as Américas (o nosso CEPPAC) – cujo colegiado, generosamente, decidiu propor às instâncias superiores de nossa instituição o meu nome para o título de Doutor "Honoris Causa". Em poucas palavras esse foi o meu périplo que, no dizer do Professor Luiz de Castro Faria, o decano dos antropólogos brasileiros, foram as minhas "Quatro Estações". Ele usou essa expressão quando em 1989 me saudava na ocasião da solenidade em que eu recebia igual distinção a que hoje recebo, então outorgada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. É assim que ao rememorar hoje minha passagem por Brasília no final dos anos 50, vejo aquela viagem como um verdadeiro presságio a antecipar meu vínculo simbólico com esta Casa que, de agora em diante – com o honroso título que me é concedido – torna-se vitalício! E se iniciei meu percurso profissional no Museu do Índio – do antigo Serviço de Proteção aos Índios –, passando em seguida para o Museu Nacional, depois para a UnB e, a seguir, pela Unicamp – as quatro estações mencionadas – entro agora na "quinta estação" com minha volta à UnB. Aceitando a metáfora devo dizer que chegar a esta última estação foi como voltar para casa.

Mas antes de me estender sobre o que significou para mim este retorno, gostaria de tecer algumas considerações sobre o seguinte fato: de que essas mudanças de cenários nunca se fazem impunemente! Seja na vida acadêmica, seja fora dela. O forasteiro tem de ser aprovado pela comunidade que é instada a acolhê-lo. E isso não é menos verdadeiro para o cenário acadêmico como o é para uma tribo indígena. Haverá paralelismos? Talvez... E para não dizer que não falei de índios – etnólogo que quando moço fui –, vejamos. Lembro-me de meu empenho em ser aceito pelo povo Terêna quando de meu primeiro trabalho de campo em Mato Grosso do Sul em meados dos anos 50, ocasião em fui levado a participar de um importante ritual que, para mim, foi como o de ser admitido no mundo terêna. Admissão, esclareça-se, indispensável a qualquer pesquisador que deseje realizar uma boa etnografia. Esse rito de admissão ocorreu ao final de uma dança tribal realizada com bastões com os quais as metades cerimoniais em que se divide a sociedade terêna, simulavam uma batalha para, ao final dela, os dois grupos irmanados cruzarem os bastões de maneira a formarem uma espécie de estrado sobre o qual punham o visitante que desejavam homenagear e o erguiam à altura de suas cabeças. Foi assim que fui homenageado – e que, em meu recente livro, Os Diários e suas Margens, o editor achou por bem incluir uma foto dessa cerimônia em que documenta o esforço do então jovem etnólogo em se sustentar sobre os bastões entre cruzados sem perder o equilíbrio... Mas o que esse evento significou para mim? Claro que minha participação posterior em algumas ações igualmente ritualizadas – como a de me submeter a uma cura xamânica pelo médico-feiticeiro terêna ou a de participar do ato cívico da aldeia durante o seu mais importante cerimonial, o do Oheokoti – todas elas iriam consolidar o papel que eu haveria de desempenhar no seio da comunidade indígena, neutralizando um pouco a minha condição de outsider, situação da qual nenhum etnólogo escapa. Mas essa homenagem foi um importante momento da pesquisa, já que a partir da simpatia com que se revestiu o ato ritual, minha participação na vida da aldeia começou a se desenhar da maneira a mais frutífera! A partir de então passei a ser olhado como alguém que levava a sério esse rito tão importante na cultura tribal, e, em conseqüência, ser visto pelos índios como uma pessoa que não considerava seus costumes de maneira preconceituosa, porém, ao contrário, era-lhes solidário. Senti haver mudado de status! E a minha identidade de amigo dos índios já começava a ser legitimada. A pesquisa tornou-se mais fácil com os diálogos fluindo normalmente. Enfim começava a ser aceito pela comunidade terêna! Mas se dei importância ao fato na época, não imaginava que o mesmo ritual iria ser repetido décadas depois, em outubro de 2000 – portanto há apenas três anos atrás –, por ocasião dos III Jogos Indígenas, realizados em Marabá, no Pará, sob os auspícios do Governo do Estado. Esses Jogos que, de uma certa maneira, não deixavam de ser um simulacro dos "Jogos Olímpicos", tinham sua realização pautada por uma organização em que as etnias neles representadas entravam, uma a uma, na arena construída em um amplo espaço de praia do rio Tocantins. Neles, perfiladas, tal como num estádio olímpico, as delegações indígenas aguardavam o momento em que teriam início as provas, como futebol, arco-e-flecha, corridas, saltos, lutas e várias outras competições. O curioso para mim é que nesses Jogos, dos treze povos indígenas representados, apenas um não era da Amazônia! Esse povo era o Terêna, aquela mesma gente que me havia acolhido tão bem no passado. Convidado a me postar à frente do palanque armado para as autoridades presentes aos Jogos, vi a delegação terêna com cerca de trinta componentes, caminhando em minha direção, dançando e cantando a mesma melodia cantada e dançada 45 anos atrás, e dei-me conta que aquela mesma homenagem iria se repetir. Claro que eu sabia que iria receber do Governo do Estado uma placa de reconhecimento pelas pesquisas que realizei na Amazônia. E para participar dessa homenagem é que eu havia sido convidado pelos organizadores dos Jogos. Mas não sabia que seriam os terênas os seus mensageiros e, muito menos, que repetiriam o mesmo ritual com que me contemplaram no passado! Felizmente, havia uma diferença: em lugar de ser eu o levantado, ainda bem que foi apenas uma placa de prata – em que eu me vi simbolicamente representado – levantada pelas mãos de uma bela adolescente terêna, ela mesma elevada pelos dançarinos naquele estrado feito pelo cruzamento dos bastões cerimoniais. A emoção foi muito grande e senti que minha identidade de amigo dos Terênas estava definitivamente consolidada. Essa, talvez, uma das funções privilegiadas dos rituais.

Porém não se pense que tais ritos são ingredientes exclusivos das culturas indígenas. Nas "culturas acadêmicas" temos os nossos próprios rituais! E eu me apercebi deles nas minhas duas últimas "estações". E constatei que na tribo dos antropólogos, ou dos acadêmicos, não se entra sem passar por seus rituais de liminalidade... É verdade que não tive maiores problemas nas comunidades de pares do Museu Nacional e desta UnB, minhas primeiras "estações" de que falava Castro Faria – afinal de contas elas se formavam simultaneamente com a minha entrada. Mas na Unicamp e, agora, no CEPPAC, colegiados já constituídos, além de não exercer neles qualquer função de direção – razão evidente de meu atual estado de bem-aventurança –, pude bem aquilatar da importância do ritual de recepção do novo membro. Claro que há sempre um risco de rejeição, mas assumi-lo é sempre um desafio enriquecedor. Faz com que mesmo o profissional sênior não descanse sobre seus eventuais louros... Há de ser admitido pelos seus novos pares. E é uma admissão que não deixa de ser também ritualizada. Os antropólogos se comprazem em considerar os ritos exímios condutores de significados, graças à sistemática reiteratividade com que são realizados – o que torna impossível escapar da força das mensagens que eles veiculam. A própria burocracia em nosso meio acadêmico, ainda que eventualmente portadora da famosa racionalidade weberiana, não deixa de gerar ritos os mais diversos. Na forma como eu os percebo, observo que a incorporação de um novo membro num colegiado acadêmico assume os contornos de uma conduta bem ritualizada: desde a "ordem do dia", como rito convocatório, ao qual se segue a apresentação do colega recém admitido (um rito oral por excelência) e se consolida pela elaboração da Ata (ela mesma a textualização ritual da reunião). Minha experiência mostra que essa ritualização pode variar de uma instituição para outra, de uma unidade para outra numa mesma universidade. Podem ser mais ou menos formalizadas. Mas se observarmos bem o que acontece à nossa volta, no interior de nossos departamentos ou unidades congêneres, veremos que com pequenas diferenças há sempre um ritualismo ao qual somos submetidos. E que não se diga que é fenômeno brasileiro, posto que em universidades estrangeiras observei rituais semelhantes. Pode-se dizer que isso é interpretação de antropólogo! Certamente: a seguirmos a teoria antropológica dos rituais, eles constituem, sejam religiosos ou seculares, modalidades de comunicação altamente condensadas, além do mais carregadas de emoção, o que faz deles um meio dos mais eficientes na transmissão de mensagens. Não são, portanto, etiquetas frívolas na regulamentação de nosso comportamento social. Ao contrário, esses ritos cumprem importante papel – muitas vezes decisivo – no nosso ingresso nos novos ambientes com que temos de lidar. Como se vê, seja na aldeia indígena, seja nas instituições universitárias pelas quais passei, não pude deixar de me submeter aos seus ritos de incorporação. É nesse sentido que vejo na presente solenidade, com todo o formalismo que a reveste, a consolidação ritualizada de minha definitiva incorporação nesta Casa.

Todavia, gostaria de me deter um pouco em minha "quinta estação": o CEPPAC – minha última e jamais prevista por Castro Faria, que me imaginava definitivamente instalado na Unicamp. O que encontrei neste meu novo ambiente – e, sobretudo, o que está representando para mim o retorno à UnB? Devo dizer algo sobre isso. Se é verdade que em cada mudança de instituição eu me via como que em processo de renovação intelectual – novos problemas, diferentes obstáculos a remover –, é igualmente verdade que eu também me sentia sempre aprendendo mais, com meus novos colegas, novos estudantes e desafiado pelos lugares em que eu me inseria pela primeira vez. Agora, no CEPPAC, posso dizer que encontro os mesmos desafios. E como se trata de uma unidade que presumo pouco conhecida, mesmo nesta Casa, já que é um lugar de pesquisa e de ensino que se diferencia do formato de departamento, habitual nesta e em outras universidades, permitam-me falar de seu perfil. Em poucas palavras, pode-se dizer que o Centro tem por foco de investigação países das Américas vistos, porém, de uma perspectiva comparativa. Isso significa que é oferecida ao alunado a possibilidade de comparar dois países (ou mais), o que já assegura ao pesquisador júnior uma ampliação de seu horizonte de pesquisa que, para nós, torna-se muito importante, já que é comum no Brasil as pesquisas tenderem a se concentrar quase que exclusivamente no território brasileiro. Só este fato é em si mesmo auspicioso já que uma das limitações que se pode identificar em nossas ciências sociais, estaria nessa concentração excessiva de pesquisas entre nós, raramente levando nossos focos de investigação além do nosso território. Por isso, num primeiro momento, pode-se dizer que tal exigência alarga de modo considerável o horizonte empírico dos estudos. Mas se esses estudos, configurados na pesquisa, possuem tal amplitude, parece-me que é no ensino das ciências sociais onde a nossa pós-graduação realiza o ideal da interdisciplinaridade; ideal que nos norteia e que se reflete na pesquisa do alunado. E, nesse sentido, devo confessar que foi esta interdisciplinaridade que me convenceu a retornar à UnB, já que na Universidade Estadual de Campinas eu havia participado da criação de um doutorado em Ciências Sociais, também interdisciplinar, e via no CEPPAC a oportunidade de continuar trabalhando com essa orientação, ao mesmo tempo que estaria procurando colaborar no desenvolvimento dessa mesma modalidade de ensino. Modalidade que constitui, a meu ver, numa maneira bastante rica de exercitar as ciências sociais e abrir os seus horizontes no ultrapassar fronteiras disciplinares – e de um modo todo especial na ampla área das Humanidades.

Embora o nosso Centro não tenha uma história muito longa, não significa que esteja despojado de história. Tem um passado que ainda repercute muito em seu presente. Nasceu como desdobramento de um curso originalmente criado nos termos de um convênio entre a UnB e a Faculdade Latino Americana de Ciências Sociais (FLACSO), a partir de 1985. Encerrado esse convênio, por não mais corresponder aos interesses de ambas as instituição patrocinadoras, foi reformulado e integrou-se em definitivo no Instituto de Ciências Sociais lado a lado dos departamentos de Antropologia e de Sociologia, constituindo-se, assim, em sua terceira unidade. Como tal, tem em sua equipe, ao lado de um núcleo efetivo de professores e pesquisadores, colegas desses dois departamentos (e de quaisquer outros que comunguem conosco os mesmos interesses) – mas que se associem ao Centro na condição de dupla filiação, ministrando cursos, participando de orientação de teses e de dissertações, e, ainda, podendo se incorporar em pesquisas que tenham por meta estudos voltados sobre as Américas. E mesmo sendo uma unidade que já conta em seu currículo com 40 teses de doutorado, algumas delas publicadas, parece-me que o papel do CEPPAC ainda não é suficientemente divulgado entre nós, não obstante o nosso "site" na Internet e os "folders" que divulgamos. Mas como estão disponíveis para consulta, não falarei muito mais sobre o Centro. Gostaria de me limitar a fazer algumas considerações bastante sucintas relativas ao seu escopo maior, a saber, sobre o que efetivamente poderíamos considerar como o maior desideratum de nossas atividades como centro de ensino e de pesquisa. Seja-me permitido insistir um pouco mais sobre a visão interdisciplinar na formação acadêmica e à orientação comparativa no exercício da investigação. Em minha leitura e com a vivência relativamente curta que tenho do CEPPAC, não creio, todavia, que estarei interpretando mal o que pensam os meus colegas sobre essa questão. Falo por mim e corro o risco.

Para melhor conduzir nosso exame desse binômio central nas atividades do Centro, vale separar a transmissão de conhecimentos da realização da pesquisa que, no caso presente, ainda que envolva projetos de investigação de seu corpo docente, está prioritariamente voltada para a elaboração de teses de doutorado e de dissertações de mestrado. Possuímos assim, a exemplo da maioria dos departamentos desta Universidade, o ensino e a pesquisa devidamente articulados, porém com a especificidade já mencionada: aquela que envolve a comparação entre países das Américas. Tal comparação, todavia, tem várias conotações: através dela pode-se chegar a construir generalizações, conhecidas também por "teorias de médio alcance"; pode objetivar "comparações culturais cruzadas" voltadas à construção de tipos; pode ainda voltar-se para o estudo sistemático de similaridades e diferenças onde as quantificações expressem co-variação estatisticamente significativa; ou, ainda, poderíamos apontar várias outras modalidades de análise comparativa. Mas há uma modalidade de comparação a que eu gostaria de dar uma atenção maior desde que ela é inerente ao trabalho antropológico, afinal de contas o meu próprio ofício.

Há dois anos atrás tive a oportunidade de escrever um ensaio, intitulado "Da Comparação", ocasião em que procurei examinar a comparação que com certa freqüência nos deparamos em estudos sobre relações de oposição estruturalmente demonstráveis (indivíduo/holismo, igualdade/hierarquia, casa/rua, etc) com uma outra modalidade de comparação que bem lhe pode ser complementar: refiro-me à comparação por "elucidação recíproca", tal como venho designando aquela comparação direcionada para esclarecimento mútuo de entidades cotejadas entre si, também aí focalizando suas semelhanças e diferenças, porém não mais submetidas a procedimentos voltados à construção de proposições empírico-analíticas. A associação entre instâncias empíricas colocadas em perspectiva comparativa pode ser extraordinariamente fecunda desde que possamos sempre submeter as respectivas realidades comparadas à observação direta e participante – esta última apanágio da investigação antropológica. Trata-se aqui de privilegiar a compreensão – na maneira como a concebem os hermeneutas – sobre a explicação de caráter nomológico, comprometida com a apreensão da realidade – seja ela natural ou social – pela via de procedimentos formais ou formalizantes. Tenho escrito bastante sobre esse assunto e não quero me estender sobre um tema tão árido para uma solenidade como esta, salvo dizer que é precisamente por intermédio dessa compreensão (também conhecida pelo termo alemão Verstehen) que minha disciplina, a Antropologia Social, vem ao longo de décadas produzindo aquilo que denominamos serem suas monografias – algumas delas podendo ser tomadas como verdadeiros exemplares, portanto fornecendo critérios de excelência na produção de resultados cientificamente tangíveis. Mas o certo é que esta última modalidade de comparação – por meio da "interpretação compreensiva" – pode ser debitada na conta da participação da antropologia no seio das ciências sociais e aplicada à formação interdisciplinar: a saber, aquela que se diferencia da multi-disciplinaridade por não associar apenas num mesmo programa diversas disciplinas, cada uma delas com seu escopo particular. Porém – de um maneira bem diferente – a idéia de inter-disciplinaridade para nós é a de orientar os nossos cursos para as fronteiras disciplinares, em cujos espaços epistêmicos são formulados os problemas de pesquisa e desenvolvidas as estratégias de investigação teórica e empírica em busca de suas soluções. São fronteiras que procuramos torná-las porosas de modo a permitirem ultrapassagens várias entre seus respectivos universos de discurso. A ilustração dessa interconexão disciplinar no seio das ciências sociais não é difícil de aquilatarmos o seu valor. E ocorre também com a História, enquanto disciplina autônoma (e presente em nosso programa curricular), mas cuja participação no horizonte das ciências sociais é de fácil justificação; afinal de contas nós estamos inseridos na História, já que nela vivemos. Ela nos condiciona e, com seus fragmentos – postos à disposição de um bricoleur imaginário, o Tempo –, é que nós construímos o nosso horizonte de percepção e de intelecção do mundo! Mas como entendermos aqui o lugar ocupado por uma outra disciplina – valha o exemplo – como a Crítica Literária, situada no polo oposto daquelas tidas como científicas? No meu modo de ver, falar dela nos conduz a uma oportuna reflexão no que diz respeito à sua especificidade na construção do discurso nas ciências sociais. Para mim sua conexão com as demais disciplinas parece-me modelar e serve para mostrar, no limite, todo o alcance da interdisciplinaridade entre nós. Se a mathesis – ou a influência da linguagem matemática – tornou-se a epísteme das ciências naturais, o discurso é o das ciências sociais e humanas. Nesse sentido, não há como negar que essas últimas sejam fundamentalmente discursivas. Portanto é este discurso – no caso o discurso científico – tópico de indispensável reflexão pelos estudantes, independentemente de suas vinculações disciplinares originárias. A experiência da Crítica – agora como Crítica do Discurso em suas várias manifestações – e que ocupa um lugar estratégico na atual quadra por que passa a antropologia, tem o que dizer onde quer que este discurso se assuma como o modo canônico de apresentação de resultados de pesquisa. Se o resultado de nossas investigações não se dão no modo de uma linguagem formalizada – na medida em que a operacionalidade da formalização não se esgota em si mesma –, é, portanto, no discurso vazado em linguagem vernacular que finalmente logramos construir toda a argumentação indispensável à conclusão de qualquer trabalho. E é com essa linguagem que realizamos o nosso ofício.

Bem, é hora de parar! Gostaria de expressar os meus agradecimentos à minha instituição, de ontem e de hoje, a Universidade de Brasília, aqui representada por seu Magnífico Reitor e pelos demais membros da Mesa, ao mesmo tempo que estendo minha gratidão aos colegas que recomendaram o meu nome para este significativo título. Um agradecimento especial ao colega Roque Laraia pela generosa saudação com que me brindou. Agradeço ainda aos meus amigos, colegas e alunos, senhoras e senhores que compareceram a esta cerimônia, honrando-me com sua presença. A todos, muito obrigado.

 

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