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Discurso de Agradecimento pelo Título de Doutor
Honoris Causa
proferido pelo Prof. Dr. Roberto Cardoso de Oliveira em 26/06/03
Magnífico Reitor, Professor Dr. Lauro Morhy
Senhor Vice-Reitor, Professor Dr. Timothy Martin Mulholland
Profª Dra. Ellen Woortmann, Diretora do Instituto de Ciências
Sociais
Profª Dra. Elizabeth Cancelli, Diretora do CEPPAC
Professor Emérito Dr. Roque de Barros Laraia
Amigos, colegas e estudantes
Senhoras e senhores
Estar neste auditório na condição de homenageado é como renovar
emoções vividas nos anos 70, quando aqui recebi o Prêmio
Internacional pela Promoção do Entendimento Humano, concedido pela
"Organização Internacional para a Eliminação de Todas Formas de
Discriminação Racial" que, de Londres, enviava um emissário como
portador da honraria que entendia que eu fizera jus pela publicação
de meu livro A Sociologia do Brasil Indígena. Simultaneamente
recebia o mesmo prêmio nos Estados Unidos, o escritor Edward Said,
por seu celebrado livro Orientalismo: O oriente como invenção do
ocidente. Mas é também um lugar que me emociona ainda mais já que
neste auditório pude assistir a outras solenidades, onde amigos e
colegas foram igualmente homenageados por seus feitos na esfera
acadêmica e científica. Tudo isso me vem à memória! Porém, em uma
cerimônia como esta, em que se recebe um título tão expressivo, como
o de Doutor "Honoris Causa" – e antes de agradecer à instituição que
o concede, não há como fugir de um breve retorno ao passado e de
fazer algumas considerações sobre meu presente nesta Casa. Alguns
acontecimentos me foram especialmente significativos no que diz
respeito às minhas duas vindas à Universidade de Brasília – em 1972
e meu retorno em 1996 – que não há como deixar de evocá-los. Mas,
desde já, prometo aos presentes não me alongar nessa retrospectiva.
Se ingressei nesta Casa em princípios do anos 70, quando de meu
primeiro contrato, bem que poderia ter ingressado antes, ao tempo de
sua fundação, já que em 1959 fui sondado por Darcy Ribeiro para vir
a Brasília para reconstituir com ele e Eduardo Galvão o pequeno
grupo de antropólogos que atuava na antiga capital do país, no Rio
de Janeiro. Afinal de contas, havíamos trabalhado juntos no Serviço
de Proteção aos Índios anos atrás. E estava eu, naquele ano,
iniciando uma pesquisa junto aos índios Tükúna – e, em viagem para
Manaus, de onde seguiria para a tríplice fronteira
Brasil/Colômbia/Peru, fiz escala em Brasília. No aeroporto,
esperava-me Berta Ribeiro. Tinha apenas algumas horas, pois meu vôo
para a Amazônia sairia no fim da tarde e Berta estava ansiosa para
mostrar o campus da UnB em febril construção. Não vi Darcy naquele
dia, mas dele recebi, através de Berta, o convite antecipado para em
futuro próximo incorporar-me à universidade que ele e Anísio
Teixeira haviam planejado construir. Não me foi possível aceitar o
convite nos primeiros anos da década de 60, já que estava envolvido
no projeto da pós-graduação que haveríamos de implantar no Museu
Nacional em 1960 – com o Curso de Especialização em Antropologia
Social, uma pós-graduação lato sensu, na qual vários dos colegas,
hoje também nesta universidade, realizaram sua especialização, como
Roque de Barros Laraia, Alcida Rita Ramos e Júlio Cesar Melatti; um
período em que eu ainda alimentava a expectativa de transformar
aquela Especialização no Programa de Pós-Graduação em Antropologia
Social da UFRJ no mesmo Museu, alvo enfim alcançado em 1968, graças
ao apoio irrestrito da Fundação Ford.
Mas todos esses acontecimentos não estiveram dissociados daquela
perspectiva que anos atrás havia sido aberta por Darcy e Berta para
meu engajamento nesta universidade. Em 1969 Roque Laraia era
convidado para vir à UnB – logo seguido por Melatti – para colaborar
com a retomada das atividades acadêmicas na área das Humanidades, em
crise desde os acontecimentos de 65 e a conseqüente demissão de
inúmeros docentes. É desnecessário dizer que a qualidade do trabalho
de ambos nesses últimos quarenta anos foi, com toda a justiça,
reconhecida por esta Casa com a concessão do título de Emérito ao se
aposentarem. Mas devo dizer que para um Programa então recém criado,
como o do Museu Nacional, a saída deles foi um desfalque para a
equipe que então eu estava organizando. Porém, com a contratação de
outros professores, ao cabo de cinco anos o PPGAS – sigla que se
converteu em sua griffe – já começava a dar os seus primeiros
frutos: as boas dissertações que começavam a surgir. Vi-me assim
inesperadamente credenciado para organizar outras pós-graduações na
minha disciplina, de modo que ainda no final dos anos 60 fui
convidado pelo então Reitor Amadeu Cury a vir para cá com todos meus
colegas; como ele me dizia: "traga toda a sua equipe que a UnB
contratará todos"! Claro que não vieram todos: dividimos o grupo e
uma parte ficou dando prosseguimento ao projeto de consolidação da
pós-graduação com o curso de doutorado que em seguida seria
instalado no Museu. E em 1971, quando estava eu realizando um
estágio pós-doutoral na Universidade de Harvard, veio me procurar o
então diretor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da
Unicamp, o economista João Paulo de Almeida Magalhães, para fazer
igual convite. Porém acabei vindo mesmo para a UnB, para só aceitar
o convite da Unicamp 15 anos mais tarde, para nela me aposentar,
tornar-me Emérito e retornar, enfim, à UnB, onde hoje me encontro.
Agora não mais no Departamento de Antropologia, mas no Centro de
Pesquisa e Pós-Graduação para as Américas (o nosso CEPPAC) – cujo
colegiado, generosamente, decidiu propor às instâncias superiores de
nossa instituição o meu nome para o título de Doutor "Honoris
Causa". Em poucas palavras esse foi o meu périplo que, no dizer do
Professor Luiz de Castro Faria, o decano dos antropólogos
brasileiros, foram as minhas "Quatro Estações". Ele usou essa
expressão quando em 1989 me saudava na ocasião da solenidade em que
eu recebia igual distinção a que hoje recebo, então outorgada pela
Universidade Federal do Rio de Janeiro. É assim que ao rememorar
hoje minha passagem por Brasília no final dos anos 50, vejo aquela
viagem como um verdadeiro presságio a antecipar meu vínculo
simbólico com esta Casa que, de agora em diante – com o honroso
título que me é concedido – torna-se vitalício! E se iniciei meu
percurso profissional no Museu do Índio – do antigo Serviço de
Proteção aos Índios –, passando em seguida para o Museu Nacional,
depois para a UnB e, a seguir, pela Unicamp – as quatro estações
mencionadas – entro agora na "quinta estação" com minha volta à UnB.
Aceitando a metáfora devo dizer que chegar a esta última estação foi
como voltar para casa.
Mas antes de me estender sobre o que significou para mim este
retorno, gostaria de tecer algumas considerações sobre o seguinte
fato: de que essas mudanças de cenários nunca se fazem impunemente!
Seja na vida acadêmica, seja fora dela. O forasteiro tem de ser
aprovado pela comunidade que é instada a acolhê-lo. E isso não é
menos verdadeiro para o cenário acadêmico como o é para uma tribo
indígena. Haverá paralelismos? Talvez... E para não dizer que não
falei de índios – etnólogo que quando moço fui –, vejamos. Lembro-me
de meu empenho em ser aceito pelo povo Terêna quando de meu primeiro
trabalho de campo em Mato Grosso do Sul em meados dos anos 50,
ocasião em fui levado a participar de um importante ritual que, para
mim, foi como o de ser admitido no mundo terêna. Admissão,
esclareça-se, indispensável a qualquer pesquisador que deseje
realizar uma boa etnografia. Esse rito de admissão ocorreu ao final
de uma dança tribal realizada com bastões com os quais as metades
cerimoniais em que se divide a sociedade terêna, simulavam uma
batalha para, ao final dela, os dois grupos irmanados cruzarem os
bastões de maneira a formarem uma espécie de estrado sobre o qual
punham o visitante que desejavam homenagear e o erguiam à altura de
suas cabeças. Foi assim que fui homenageado – e que, em meu recente
livro, Os Diários e suas Margens, o editor achou por bem incluir uma
foto dessa cerimônia em que documenta o esforço do então jovem
etnólogo em se sustentar sobre os bastões entre cruzados sem perder
o equilíbrio... Mas o que esse evento significou para mim? Claro que
minha participação posterior em algumas ações igualmente ritualizadas – como a de me submeter a uma cura xamânica pelo
médico-feiticeiro terêna ou a de participar do ato cívico da aldeia
durante o seu mais importante cerimonial, o do Oheokoti – todas elas
iriam consolidar o papel que eu haveria de desempenhar no seio da
comunidade indígena, neutralizando um pouco a minha condição de
outsider, situação da qual nenhum etnólogo escapa. Mas essa
homenagem foi um importante momento da pesquisa, já que a partir da
simpatia com que se revestiu o ato ritual, minha participação na
vida da aldeia começou a se desenhar da maneira a mais frutífera! A
partir de então passei a ser olhado como alguém que levava a sério
esse rito tão importante na cultura tribal, e, em conseqüência, ser
visto pelos índios como uma pessoa que não considerava seus costumes
de maneira preconceituosa, porém, ao contrário, era-lhes solidário.
Senti haver mudado de status! E a minha identidade de amigo dos
índios já começava a ser legitimada. A pesquisa tornou-se mais fácil
com os diálogos fluindo normalmente. Enfim começava a ser aceito
pela comunidade terêna! Mas se dei importância ao fato na época, não
imaginava que o mesmo ritual iria ser repetido décadas depois, em
outubro de 2000 – portanto há apenas três anos atrás –, por ocasião
dos III Jogos Indígenas, realizados em Marabá, no Pará, sob os
auspícios do Governo do Estado. Esses Jogos que, de uma certa
maneira, não deixavam de ser um simulacro dos "Jogos Olímpicos",
tinham sua realização pautada por uma organização em que as etnias
neles representadas entravam, uma a uma, na arena construída em um
amplo espaço de praia do rio Tocantins. Neles, perfiladas, tal como
num estádio olímpico, as delegações indígenas aguardavam o momento
em que teriam início as provas, como futebol, arco-e-flecha,
corridas, saltos, lutas e várias outras competições. O curioso para
mim é que nesses Jogos, dos treze povos indígenas representados,
apenas um não era da Amazônia! Esse povo era o Terêna, aquela mesma
gente que me havia acolhido tão bem no passado. Convidado a me
postar à frente do palanque armado para as autoridades presentes aos
Jogos, vi a delegação terêna com cerca de trinta componentes,
caminhando em minha direção, dançando e cantando a mesma melodia
cantada e dançada 45 anos atrás, e dei-me conta que aquela mesma
homenagem iria se repetir. Claro que eu sabia que iria receber do
Governo do Estado uma placa de reconhecimento pelas pesquisas que
realizei na Amazônia. E para participar dessa homenagem é que eu
havia sido convidado pelos organizadores dos Jogos. Mas não sabia
que seriam os terênas os seus mensageiros e, muito menos, que
repetiriam o mesmo ritual com que me contemplaram no passado!
Felizmente, havia uma diferença: em lugar de ser eu o levantado,
ainda bem que foi apenas uma placa de prata – em que eu me vi
simbolicamente representado – levantada pelas mãos de uma bela
adolescente terêna, ela mesma elevada pelos dançarinos naquele
estrado feito pelo cruzamento dos bastões cerimoniais. A emoção foi
muito grande e senti que minha identidade de amigo dos Terênas
estava definitivamente consolidada. Essa, talvez, uma das funções
privilegiadas dos rituais.
Porém não se pense que tais ritos são ingredientes exclusivos das
culturas indígenas. Nas "culturas acadêmicas" temos os nossos
próprios rituais! E eu me apercebi deles nas minhas duas últimas
"estações". E constatei que na tribo dos antropólogos, ou dos
acadêmicos, não se entra sem passar por seus rituais de
liminalidade... É verdade que não tive maiores problemas nas
comunidades de pares do Museu Nacional e desta UnB, minhas primeiras
"estações" de que falava Castro Faria – afinal de contas elas se
formavam simultaneamente com a minha entrada. Mas na Unicamp e,
agora, no CEPPAC, colegiados já constituídos, além de não exercer
neles qualquer função de direção – razão evidente de meu atual
estado de bem-aventurança –, pude bem aquilatar da importância do
ritual de recepção do novo membro. Claro que há sempre um risco de
rejeição, mas assumi-lo é sempre um desafio enriquecedor. Faz com
que mesmo o profissional sênior não descanse sobre seus eventuais
louros... Há de ser admitido pelos seus novos pares. E é uma
admissão que não deixa de ser também ritualizada. Os antropólogos se
comprazem em considerar os ritos exímios condutores de significados,
graças à sistemática reiteratividade com que são realizados – o que
torna impossível escapar da força das mensagens que eles veiculam. A
própria burocracia em nosso meio acadêmico, ainda que eventualmente
portadora da famosa racionalidade weberiana, não deixa de gerar
ritos os mais diversos. Na forma como eu os percebo, observo que a
incorporação de um novo membro num colegiado acadêmico assume os
contornos de uma conduta bem ritualizada: desde a "ordem do dia",
como rito convocatório, ao qual se segue a apresentação do colega
recém admitido (um rito oral por excelência) e se consolida pela
elaboração da Ata (ela mesma a textualização ritual da reunião).
Minha experiência mostra que essa ritualização pode variar de uma
instituição para outra, de uma unidade para outra numa mesma
universidade. Podem ser mais ou menos formalizadas. Mas se
observarmos bem o que acontece à nossa volta, no interior de nossos
departamentos ou unidades congêneres, veremos que com pequenas
diferenças há sempre um ritualismo ao qual somos submetidos. E que
não se diga que é fenômeno brasileiro, posto que em universidades
estrangeiras observei rituais semelhantes. Pode-se dizer que isso é
interpretação de antropólogo! Certamente: a seguirmos a teoria
antropológica dos rituais, eles constituem, sejam religiosos ou
seculares, modalidades de comunicação altamente condensadas, além do
mais carregadas de emoção, o que faz deles um meio dos mais
eficientes na transmissão de mensagens. Não são, portanto, etiquetas
frívolas na regulamentação de nosso comportamento social. Ao
contrário, esses ritos cumprem importante papel – muitas vezes
decisivo – no nosso ingresso nos novos ambientes com que temos de
lidar. Como se vê, seja na aldeia indígena, seja nas instituições
universitárias pelas quais passei, não pude deixar de me submeter
aos seus ritos de incorporação. É nesse sentido que vejo na presente
solenidade, com todo o formalismo que a reveste, a consolidação
ritualizada de minha definitiva incorporação nesta Casa.
Todavia, gostaria de me deter um pouco em minha "quinta estação":
o CEPPAC – minha última e jamais prevista por Castro Faria, que me
imaginava definitivamente instalado na Unicamp. O que encontrei
neste meu novo ambiente – e, sobretudo, o que está representando
para mim o retorno à UnB? Devo dizer algo sobre isso. Se é verdade
que em cada mudança de instituição eu me via como que em processo de
renovação intelectual – novos problemas, diferentes obstáculos a
remover –, é igualmente verdade que eu também me sentia sempre
aprendendo mais, com meus novos colegas, novos estudantes e
desafiado pelos lugares em que eu me inseria pela primeira vez.
Agora, no CEPPAC, posso dizer que encontro os mesmos desafios. E
como se trata de uma unidade que presumo pouco conhecida, mesmo
nesta Casa, já que é um lugar de pesquisa e de ensino que se
diferencia do formato de departamento, habitual nesta e em outras
universidades, permitam-me falar de seu perfil. Em poucas palavras,
pode-se dizer que o Centro tem por foco de investigação países das
Américas vistos, porém, de uma perspectiva comparativa. Isso
significa que é oferecida ao alunado a possibilidade de comparar
dois países (ou mais), o que já assegura ao pesquisador júnior uma
ampliação de seu horizonte de pesquisa que, para nós, torna-se muito
importante, já que é comum no Brasil as pesquisas tenderem a se
concentrar quase que exclusivamente no território brasileiro. Só
este fato é em si mesmo auspicioso já que uma das limitações que se
pode identificar em nossas ciências sociais, estaria nessa
concentração excessiva de pesquisas entre nós, raramente levando
nossos focos de investigação além do nosso território. Por isso, num
primeiro momento, pode-se dizer que tal exigência alarga de modo
considerável o horizonte empírico dos estudos. Mas se esses estudos,
configurados na pesquisa, possuem tal amplitude, parece-me que é no
ensino das ciências sociais onde a nossa pós-graduação realiza o
ideal da interdisciplinaridade; ideal que nos norteia e que se
reflete na pesquisa do alunado. E, nesse sentido, devo confessar que
foi esta interdisciplinaridade que me convenceu a retornar à UnB, já
que na Universidade Estadual de Campinas eu havia participado da
criação de um doutorado em Ciências Sociais, também
interdisciplinar, e via no CEPPAC a oportunidade de continuar
trabalhando com essa orientação, ao mesmo tempo que estaria
procurando colaborar no desenvolvimento dessa mesma modalidade de
ensino. Modalidade que constitui, a meu ver, numa maneira bastante
rica de exercitar as ciências sociais e abrir os seus horizontes no
ultrapassar fronteiras disciplinares – e de um modo todo especial na
ampla área das Humanidades.
Embora o nosso Centro não tenha uma história muito longa, não
significa que esteja despojado de história. Tem um passado que ainda
repercute muito em seu presente. Nasceu como desdobramento de um
curso originalmente criado nos termos de um convênio entre a UnB e a
Faculdade Latino Americana de Ciências Sociais (FLACSO), a partir de
1985. Encerrado esse convênio, por não mais corresponder aos
interesses de ambas as instituição patrocinadoras, foi reformulado e
integrou-se em definitivo no Instituto de Ciências Sociais lado a
lado dos departamentos de Antropologia e de Sociologia,
constituindo-se, assim, em sua terceira unidade. Como tal, tem em
sua equipe, ao lado de um núcleo efetivo de professores e
pesquisadores, colegas desses dois departamentos (e de quaisquer
outros que comunguem conosco os mesmos interesses) – mas que se
associem ao Centro na condição de dupla filiação, ministrando
cursos, participando de orientação de teses e de dissertações, e,
ainda, podendo se incorporar em pesquisas que tenham por meta
estudos voltados sobre as Américas. E mesmo sendo uma unidade que já
conta em seu currículo com 40 teses de doutorado, algumas delas
publicadas, parece-me que o papel do CEPPAC ainda não é
suficientemente divulgado entre nós, não obstante o nosso "site" na
Internet e os "folders" que divulgamos. Mas como estão disponíveis
para consulta, não falarei muito mais sobre o Centro. Gostaria de me
limitar a fazer algumas considerações bastante sucintas relativas ao
seu escopo maior, a saber, sobre o que efetivamente poderíamos
considerar como o maior desideratum de nossas atividades como centro
de ensino e de pesquisa. Seja-me permitido insistir um pouco mais
sobre a visão interdisciplinar na formação acadêmica e à orientação
comparativa no exercício da investigação. Em minha leitura e com a
vivência relativamente curta que tenho do CEPPAC, não creio,
todavia, que estarei interpretando mal o que pensam os meus colegas
sobre essa questão. Falo por mim e corro o risco.
Para melhor conduzir nosso exame desse binômio central nas
atividades do Centro, vale separar a transmissão de conhecimentos da
realização da pesquisa que, no caso presente, ainda que envolva
projetos de investigação de seu corpo docente, está prioritariamente
voltada para a elaboração de teses de doutorado e de dissertações de
mestrado. Possuímos assim, a exemplo da maioria dos departamentos
desta Universidade, o ensino e a pesquisa devidamente articulados,
porém com a especificidade já mencionada: aquela que envolve a
comparação entre países das Américas. Tal comparação, todavia, tem
várias conotações: através dela pode-se chegar a construir
generalizações, conhecidas também por "teorias de médio alcance";
pode objetivar "comparações culturais cruzadas" voltadas à
construção de tipos; pode ainda voltar-se para o estudo sistemático
de similaridades e diferenças onde as quantificações expressem
co-variação estatisticamente significativa; ou, ainda, poderíamos
apontar várias outras modalidades de análise comparativa. Mas há uma
modalidade de comparação a que eu gostaria de dar uma atenção maior
desde que ela é inerente ao trabalho antropológico, afinal de contas
o meu próprio ofício.
Há dois anos atrás tive a oportunidade de escrever um ensaio,
intitulado "Da Comparação", ocasião em que procurei examinar a
comparação que com certa freqüência nos deparamos em estudos sobre
relações de oposição estruturalmente demonstráveis (indivíduo/holismo,
igualdade/hierarquia, casa/rua, etc) com uma outra modalidade de
comparação que bem lhe pode ser complementar: refiro-me à comparação
por "elucidação recíproca", tal como venho designando aquela
comparação direcionada para esclarecimento mútuo de entidades
cotejadas entre si, também aí focalizando suas semelhanças e
diferenças, porém não mais submetidas a procedimentos voltados à
construção de proposições empírico-analíticas. A associação entre
instâncias empíricas colocadas em perspectiva comparativa pode ser
extraordinariamente fecunda desde que possamos sempre submeter as
respectivas realidades comparadas à observação direta e participante
– esta última apanágio da investigação antropológica. Trata-se aqui
de privilegiar a compreensão – na maneira como a concebem os
hermeneutas – sobre a explicação de caráter nomológico, comprometida
com a apreensão da realidade – seja ela natural ou social – pela via
de procedimentos formais ou formalizantes. Tenho escrito bastante
sobre esse assunto e não quero me estender sobre um tema tão árido
para uma solenidade como esta, salvo dizer que é precisamente por
intermédio dessa compreensão (também conhecida pelo termo alemão
Verstehen) que minha disciplina, a Antropologia Social, vem ao longo
de décadas produzindo aquilo que denominamos serem suas monografias
– algumas delas podendo ser tomadas como verdadeiros exemplares,
portanto fornecendo critérios de excelência na produção de
resultados cientificamente tangíveis. Mas o certo é que esta última
modalidade de comparação – por meio da "interpretação compreensiva"
– pode ser debitada na conta da participação da antropologia no seio
das ciências sociais e aplicada à formação interdisciplinar: a
saber, aquela que se diferencia da multi-disciplinaridade por não
associar apenas num mesmo programa diversas disciplinas, cada uma
delas com seu escopo particular. Porém – de um maneira bem diferente
– a idéia de inter-disciplinaridade para nós é a de orientar os
nossos cursos para as fronteiras disciplinares, em cujos espaços
epistêmicos são formulados os problemas de pesquisa e desenvolvidas
as estratégias de investigação teórica e empírica em busca de suas
soluções. São fronteiras que procuramos torná-las porosas de modo a
permitirem ultrapassagens várias entre seus respectivos universos de
discurso. A ilustração dessa interconexão disciplinar no seio das
ciências sociais não é difícil de aquilatarmos o seu valor. E ocorre
também com a História, enquanto disciplina autônoma (e presente em
nosso programa curricular), mas cuja participação no horizonte das
ciências sociais é de fácil justificação; afinal de contas nós
estamos inseridos na História, já que nela vivemos. Ela nos
condiciona e, com seus fragmentos – postos à disposição de um
bricoleur imaginário, o Tempo –, é que nós construímos o nosso
horizonte de percepção e de intelecção do mundo! Mas como
entendermos aqui o lugar ocupado por uma outra disciplina – valha o
exemplo – como a Crítica Literária, situada no polo oposto daquelas
tidas como científicas? No meu modo de ver, falar dela nos conduz a
uma oportuna reflexão no que diz respeito à sua especificidade na
construção do discurso nas ciências sociais. Para mim sua conexão
com as demais disciplinas parece-me modelar e serve para mostrar, no
limite, todo o alcance da interdisciplinaridade entre nós. Se a
mathesis – ou a influência da linguagem matemática – tornou-se a
epísteme das ciências naturais, o discurso é o das ciências sociais
e humanas. Nesse sentido, não há como negar que essas últimas sejam
fundamentalmente discursivas. Portanto é este discurso – no caso o
discurso científico – tópico de indispensável reflexão pelos
estudantes, independentemente de suas vinculações disciplinares
originárias. A experiência da Crítica – agora como Crítica do
Discurso em suas várias manifestações – e que ocupa um lugar
estratégico na atual quadra por que passa a antropologia, tem o que
dizer onde quer que este discurso se assuma como o modo canônico de
apresentação de resultados de pesquisa. Se o resultado de nossas
investigações não se dão no modo de uma linguagem formalizada – na
medida em que a operacionalidade da formalização não se esgota em si
mesma –, é, portanto, no discurso vazado em linguagem vernacular que
finalmente logramos construir toda a argumentação indispensável à
conclusão de qualquer trabalho. E é com essa linguagem que
realizamos o nosso ofício.
Bem, é hora de parar! Gostaria de expressar os meus
agradecimentos à minha instituição, de ontem e de hoje, a
Universidade de Brasília, aqui representada por seu Magnífico Reitor
e pelos demais membros da Mesa, ao mesmo tempo que estendo minha
gratidão aos colegas que recomendaram o meu nome para este
significativo título. Um agradecimento especial ao colega Roque
Laraia pela generosa saudação com que me brindou. Agradeço ainda aos
meus amigos, colegas e alunos, senhoras e senhores que compareceram
a esta cerimônia, honrando-me com sua presença. A todos, muito
obrigado.
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