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A Revolução Tecnológica, a experiência da escassez e os limites da
globalização atual
Prof . Dr. Milton Santos (USP)
1. Hoje, um emaranhado de técnicas: o reino do artifício
As técnicas estão, hoje, em toda parte: na produção, na
circulação, no território, na política, na cultura, no corpo e no
espírito do homem. Tanto os objetos quanto as ações derivam da
técnica. Vivemos todos num emaranhado de técnicas o que, em outras
palavras, significa que estamos todos mergulhados no reino do
artifício. Na medida em que as técnicas hegemônicas, fundadas na
ciência e obedientes aos imperativos do mercado, são extremamente
dotadas de intencionalidade, há igualmente tendência à hegemonia de
uma produção "racional" de coisas e de necessidades; e, desse modo,
a uma produção excludente de outras produções, com a multiplicação
de objetos técnicos estritamente programados que abrem espaço para
esta orgia de coisas e necessidades que impõem relações e nos
governam. Cria-se um verdadeiro totalitarismo tendencial da
racionalidade - isto é, dessa racionalidade hegemônica, dominante,
produzindo-se, a partir do respectivo sistema, certas coisas,
serviços, relações e idéias, não outras coisas. Esta, aliás, é a
base primeira da produção de carências e de escassez, já que uma
parcela considerável da sociedade não pode ter acesso às coisas,
serviços, relações, idéias que se multiplicam na base da
racionalidade hegemônica.
2. A escassez hoje
Assim, a situação contemporânea revela, entre outras coisas, três
tendências: 1 uma produção acelerada e artificial de necessidades;
2.uma incorporação limitada de modos de vida ditos racionais; 3.uma
produção ilimitada de carência e escassez.
Nessa situação, as técnicas, a velocidade, a potência criam
desigualdades e, paralelamente, necessidades, porque não há
satisfação para todos. Não é que a produção necessária seja
globalmente impossível. Mas o que é produzido - necessária ou
desnecessariamente - é desigualmente distribuído. Dai a sensação e,
depois, a consciência da escassez: aquilo que me falta a mim, mas
que o outro melhor situado na sociedade possui. A idéia vem de
Sartre, quando registra que "não há bastante para todo o mundo". Por
isso o outro consome e não eu. Cada homem é, afinal, definido pela
soma dos possíveis que lhe cabem, mas também pela soma dos seus
impossíveis.
O reino da necessidade existe para todos, mas segundo formas
diferentes, as quais simplificaremos mediante duas situações tipo:
para os "possuidores", para os "não possuidores".
Quanto aos "possuidores", torna-se viável, mediante
possibilidades reais ou artifícios renovados, a fuga à escassez e a
superação, ainda que provisória, da escassez. Como o processo de
criação de necessidades é infinito, impõe-se uma readaptação
permanente. Cria-se um círculo vicioso com a rotina da falta e da
satisfação. Na realidade, para essa parcela da sociedade, quando a
falta é criada já o é com a expectativa e a perspectiva de
satisfação. As negociações para regressar ao status de consumidor
satisfeito conduzem à repetição de experiências exitosas. Desse
modo, a parcela de consumidores contumazes obtém uma convivência
relativamente pacifica com a escassez. Mas, a busca permanente de
bens finitos e por isso, condenados ao esgotamento (e à substituição
por outros bens finitos) condena também os aparentemente vitoriosos
à aceitação da contrafinalidade contida nas coisas e, em
conseqüência, ao enfraquecimento da individualidade.
Quanto aos "não possuidores", sua convivência com a escassez é
conflituosa e pode até ser guerreira. Para eles, viver na esfera do
consumo é como querer subir uma escada rolante no sentido da
descida. Cada dia acaba oferecendo uma nova experiência da escassez.
Por isso, não há lugar para o repouso e a própria vida acaba por ser
um verdadeiro campo de batalha. Na briga cotidiana pela
sobrevivência, o que há, mesmo, é uma luta, pois não há para eles
negociação possível, já que, individualmente, não há força de
negociação. A sobrevivência só lhes é assegurada porque as
experiências imperativamente se renovam. E como a surpresa se dá
como rotina, a riqueza dos "não possuidores" é a prontidão dos
sentidos. É com essa força que eles se eximem da contrafinalidade e,
ao lado da busca de bens materiais finitos, cultivam a procura de
bens infinitos, como a solidariedade e a liberdade: estes, quanto
mais se distribuem mais aumentam.
3. O período demográfico: as condições empíricas da mutação
É a partir dessas premissas que se pode pensar na reemergência
das massas. Para isso devem contribuir, a partir das migrações
políticas ou econômicas, a ampliação da tendência atual à mistura
intercontinental e intranacional de povos, raças, religiões, gostos,
assim como a tendência crescente à aglomeração da população em
alguns lugares, essa urbanização concentrada já revelada nos últimos
20 anos.
Da combinação dessas duas tendências, pode-se supor que o
processo, já iniciado há meio século, levará à generalização de um
certo esquema dual já presente nos países subdesenvolvidos do sul e
agora ainda mais evidente.
Tal sociedade e tal economia dual (mas não dualista) conduzirá a
duas formas de acumulação, duas formas de divisão do trabalho e duas
lógicas urbanas distintas e associadas tendo como base de operação
um mesmo lugar.
O fenômeno, já entrevisto, de uma divisão do trabalho por cima e
de uma outra por baixo tenderá a se reforçar. A primeira prende-se
ao uso obediente das técnicas da racionalidade hegemônica, enquanto
a segunda é fundada na descoberta cotidiana das combinações que
permitem a vida e que operam, segundo os lugares, em diferentes
graus de qualidade e de quantidade.
Com a divisão do trabalho por cima dá-se uma solidariedade criada
de fora e dependente de vetores verticais e de relações pragmáticas
freqüentemente longínquas. A racionalidade é mantida às custas de
normas férreas, exclusivas, radicais, implacáveis. Sem obediência
cega não há eficácia.
Na divisão do trabalho por baixo, o que se produz é uma
solidariedade criada de dentro e dependente de vetores horizontais
cimentados no território e na cultura locais. Aqui são as relações
de proximidade que avultam, este e o domínio da flexibilidade
tropical com a adaptabilidade extrema dos atores, uma adaptabilidade
que é fundada de dentro. A cada movimento novo, há um novo
equilíbrio em favor da sociedade local e regulado por ela.
A divisão do trabalho por cima é um campo de maior velocidade,
com sacrifício do simbólico. Nela, a rigidez das normas econômicas
(privadas e públicas) impede a política e toma o seu lugar. Por
baixo, há maior dinamismo, maior movimento, mais encontros, maior
complexidade, mais riqueza (a riqueza e o movimento dos homens
lentos), mais combinações. Produz-se uma nova centralidade do
social, segundo a fórmula sugerida por Ana Clara Torres Ribeiro, o
que constitui uma nova base para a afirmação do reino da política.
4. Os limites da racionalidade
O Projeto Racional começa a mostrar suas limitações, talvez
porque estejamos atingindo aquele paroxismo, previsto, por Weber,
para realizar-se quando o processo de expansão da racionalidade
capitalista se tornasse ilimitado. Tudo indica que estamos atingindo
esse limite, agora que vivemos, nos diversos níveis da vida
econômica, social, individual, uma racionalidade totalitária que vem
acompanhada de uma perda da razão. O escândalo de carências e de
escassez que atinge uma parcela cada vez maior da sociedade permite
reconhecer a realidade dessa perdição. E uma boa parcela da
humanidade, por desinteresse ou incapacidade, não é mais capaz de
obedecer leis, normas, regras, mandamentos, costumes, derivados
dessa racionalidade hegemônica. Daí a proliferação de "ilegais",
"irregulares", "informais". Essa incapacidade mistura, no processo
de vida, práticas e teorias herdadas e inovadas, religiões
tradicionais e novas convicções.
É nesse caldo de cultura que numerosas frações da sociedade
passam da situação anterior de conformidade associada ao conformismo
a uma etapa superior da produção da consciência, isto é, a
conformidade sem o conformismo. Produz-se, desta maneira, a
redescoberta pelos homens da razão e não é espantoso que tal
descobrimento se dê exatamente nos espaços sociais, econômicos e
geográficos também "não conformes" à racionalidade dominante.
Na esfera da racionalidade hegemônica, pequena margem é deixada
para a variedade, a criatividade, a espontaneidade. Enquanto isso,
nas outras esferas surgem contraracionalidades e racionalidades
paralelas, corriqueiramente chamadas de irracionalidades, mas que na
realidade constituem outra formas de racionalidade, produzidas e
mantidas pelos que estão "em baixo", sobretudo os pobres, que desse
modo conseguem escapar ao totalitarismo da racionalidade dominante.
Devemos, mais uma vez, reconhecer o ensinamento de Sartre quando ele
lembra que é a escassez o que torna a história possível, graças à
"unidade negativa da multiplicidade concreta dos homens"
Tal situação é esperançosa em parte, porque agora, paralelamente
assistimos ao fim das expectativas de melhoria social nutridas no
após guerra e constatamos a ampliação do número de pobres, assim
como testemunhamos o estreitamento das possibilidades e das certezas
que as classes médias acalentavam até os anos 80. Junte-se a isso o
fato de que a realização cada vez mais densa do processo de
globalização enseja o caldeamento ainda que elementar das filosofias
produzidas nos diversos continentes, em detrimento do racionalismo
europeu, que é o bisavô das idéias de racionalismo tecnocrático hoje
dominantes.
5. Outros usos possíveis para as técnicas atuais
As famílias de técnicas emergentes com o fim do século oferecem a
possibilidade de superação do imperativo da tecnologia hegemônica e
paralelamente admitem a proliferação de novos "artesanatos" com a
retomada da criatividade, como, aliás, já se está dando nas áreas da
sociedade onde a divisão do trabalho se produz de baixo para cima.
Aqui a produção do novo e o uso e a difusão do novo deixam de ser
monopolizados por um capital cada vez mais concentrado, para
pertencer ao domínio do maior número, possibilitando, afinal, a
emergência de um verdadeiro mundo da inteligência. Desse modo, a
técnica pode voltar a ser o resultado do encontro do engenho humano
com um pedaço determinado da natureza, permitindo que essa relação
seja fundada nas respectivas virtualidades e de modo a assegurar a
restauração do homem em sua essência.
A partir dessa metamorfose, pode-se igualmente pensar na produção
local de um entendimento progressivo do mundo e do lugar, com a
produção indígena de imagens, discursos, filosofias, junto à
elaboração de um novo "ethos", novas ideologias, novas crenças
políticas, tudo isso amparado na ressurreição da idéia e da prática
da solidariedade.
6. As premissas filosóficas
O mundo de hoje permite uma outra percepção da história, através
da constituição de uma universalidade empírica. Sua dialética com as
particularidades encorajará a superação das praxis invertidas e a
possibilidade de ultrapassar o reino da necessidade, abrindo lugar
para a utopia e para a esperança. São estas condições históricas do
presente, reconhecíveis segundo uma nova forma de enxergar a
globalização, o que permitirá reconhecer, na totalidade do Planeta,
o que já existe e o que é possível, vistos de uma forma unitária.
Lembremo-nos da lição de A. Schmidt (1971; 196) quando dizia que "A
realidade é, além disso, tudo aquilo em que ainda não nos tornamos,
ou seja, tudo aquilo que a nós mesmos nos projetamos como seres
humanos, por intermédio dos mitos, das escolhas, das decisões e das
lutas".
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