UnB


Discurso da Profª Dóris de Faria na cerimônia de concessão do título de Doutor Honoris Causa ao Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns

Discurso proferido pela Professora Doutora Dóris Santos de Faria, Decana de Extensão da Universidade de Brasília.

Bom-Dia Senhores, é uma honra para nossa casa - Universidade de Brasília - ter em nosso quadro de Doutoris Honoris Causa, o mais ilustre pastor de almas deste país, Dom Paulo Evaristo Arns !

Magnífico Reitor Lauro Morhy, Vice-Reitor Timothy Mullholand, Pe.Vilson Dias de Oliveira, representando a CNBB, colegas Decanos, membros deste Conselho Universitário, amado Dom Paulo, senhoras e senhores:

D. PAULO EVARISTO ARNS, nesta data, 17 de dezembro de 2002, estregaremos a V.Exª o titulo de Doutor Honoris Causa da Universidade de Brasília, por solicitação do nosso Magnífico Reitor Lauro Morhy, e aprovação, por unanimidade, em todas as instâncias acadêmicas percorridas. Permitam-me, antes de iniciar propriamente nossa homenagem, chamar atenção para algumas questões fundamentais e que vão balizar a análise que farei em seguida. Primeiramente, os aspectos relativos aos títulos na vida de Dom Evaristo Arns, por se tratar do motivo desta homenagem...

Entre sua ordenação em 30 de novembro de 1945, como Franciscano, em Petrópolis, RJ, e sua aposentadoria como Arcebispo de SP, em 16 de maio de 1998 – exatamente 52 anos, 5 meses e 16 dias depois -, V.Exª conquistou aproximadamente uma centena de títulos, todos eles envolvendo altos graus acadêmicos e grandes homenagens públicas. No entanto, talvez o principal deles seja o de "Cardeal dos Trabalhadores", obtido quando se despediu do cargo após 28 anos a frente de uma das maiores arquidiocese católicas do mundo, por ter atingido o limite de 75 anos de idade. Empossou Dom Cláudio Hummes como seu sucessor, em tríplice cerimônia, a Missa do Trabalhador, sua última celebração como chefe maior da Igreja em São Paulo. Com o poema "Dom Paulo do Povo", este povo trabalhador lhe conferiu o referido título de "Cardeal dos Trabalhadores". Entre um e outro momento – além de estar a vida de uma pessoa que resolveu marcar seu destino pela dedicação aos mais carentes, aos mais necessitados -, está a história de um povo inteiro, brasileiro, que conseguiu cunhar na alma deste irmão de Francisco e filho de Cristo, nascido de imigrantes alemães, o auto-conceito de "caboclo" com que aporta num dos maiores umbrais da cultura humanística – como a Universidade de Sorbonne, em Paris, de onde sai com os títulos máximos: os 4 Diplomas (Latim, Grego, História Antiga e Língua Estrangeira/Estudos Brasileiros), a Licenciatura em Letras (1950), especialização em Pedagogia e em Literatura antiga (ambos entre 1950-52) e o Doutorado também em 1952, em Letras, com tese sobre São Jerônimo, o maior estudioso da Bíblia, para a qual elaborou toda uma nova organização. O interesse pela Patrologia – os primeiros anos da Igreja Católica e seus primeiros santos – também o levou a desenvolver teses secundárias, dentre elas sobre as Confissões de Santo Agostinho e sobre São Boaventura. Ficam-nos diversas questões: com tantos títulos acadêmicos, o que faz este que termina sendo o primaz de tão importante comunidade dizer em sua auto biografia que "os doutorados e outros títulos incomodam em vez de empolgar" e identificar como o maior dos títulos que tem – guardado como um juramento a seu pai, o "de padre, mas tirado dentre o povo"? Por conseguinte, que há de especial para ele e, para a nossa Universidade de Brasília, um outro título após 20 títulos de Doutor Honoris Causa – 9 títulos internacionais e 11 nacionais ? Que há de especial na vida de Dom Paulo Evaristo Arns para nossa sociedade nestes novos tempos do ano de 2002, em que conseguimos consolidar a democracia em nosso país – após tanta luta e sofrimento popular, em grande parte compartilhados pela pessoa deste tão solidário irmão? Que simbologia é esta que este padre traz em sua vida que permite estarmos vivendo neste momento exatamente a passagem de governo entre duas pessoas extremamente vivenciadas por ele, como o professor-sociólogo Fernando Henrique Cardoso e o operário-sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva ? Que representa esta síntese entre o intelectual e o operário ? Por quê é Dom Paulo ordenado com o lema episcopal "Ex spe in spem" (de esperança em esperança) e conclui sua auto biografia com o título "Da esperança à utopia ? O que mudou ? Que sínteses devemos buscar para entender melhor a vida e a obra deste ser tão importante para o Brasil e a importância deste título pela UnB ? Que sínteses o Homem, o País e a História trazem neste momento para este ato ?

Irei organizar esta fala em homenagem a Dom Paulo com algumas "racionais" que expressam a lógica com que consegui organizar meu pensamento para compreender sua vida e obra, de modo que fosse além da abordagem linear de apresentar a quantidade de seus feitos – e o incomodasse -, e passasse a expressar a dinâmica que percebia na construção própria de sua vida, relacionando os aspectos emblemáticos, com os fatos concretos de suas ações. Ouvi pessoas ligadas a Dom Paulo, na CNBB os padres Ernani e Manoel, conversei com colegas que tiveram algum contato com ele, como os meus colegas, hoje diretores em nossa universidade, José Geraldo e Nielsen, a quem agradeço muitíssimo, consultei a biografia sobre Dom Paulo, das jornalistas Evaniza Sydow e Marilda Ferri, além de sua própria auto biografia. Fiz uma leitura própria e, de ante-mão, eu peço perdão a Dom Paulo se tiver cometido alguma análise equivocada e, por caridade, não tenha pudor de corrigir-me porque o mais importante é o fiel registro histórico. Frente à tarefa que me impôs mui recentemente meu Reitor, de ser a oradora deste egrégio Conselho, tomei-a como uma ordem e aos superiores, como bem diz Dom Paulo, não se contesta, obedece-se! E assim, vejo-me tal qual um Davi a enfrentar o monumento de homenagear Dom Paulo Evaristo Arns com alguma fala que traga para este momento a verdadeira magnitude do homenageado. Minha "funda" será - mais do que a admiração que me inspira porque pude acompanhá-lo pelos jornais, neste longo período de sua luta pelos direitos humanos ao longo das décadas da ditadura militar -, o amor e a admiração que sinto por ele. Escrever esta homenagem foi um mergulho na vida de Dom Paulo, pena que tão rápido, mas que tocou profundamente a minh’alma e fez-me intuir tanta coisa a seu respeito… Não poderia ter-me restrito a enumerar diplomas, títulos, medalhas, prêmios e homenagens especiais porque desagradaria a Dom Paulo. Então, estarei tentando navegar no estreito limite de abordar a beleza e magnitude de sua obra sem constrangê-lo com quantificações, mas com alguma contribuição qualitativa compreensiva sobre sua vida, capaz de compartilhar com esta seleta audiência. E assim seguiremos…

 

:: topo

I. As origens

As origens são dadas pelo contexto mundial no final do século 18 e início do século 19, com a imigração de seu tetravô Nikolaus para o Brasil e a saga de um século dos colonos, principalmente alemães e italianos, para a conquista de condições de vida com honradez e virtude. No cenário de um mundo conturbado por duas grandes guerras, escravagismo, epopéias, quebra do sistema financeiro mundial, como em 1929, mas muita determinação, esta nação brasileira foi construida com o esforço inimaginável, em nossos dias, destes colonos. É no seio dos valores culturais, éticos e religiosos que as famílias se estruturam e dão condições para que estes novos brasileiros, como o pai de D. Evaristo, Gabriel, e sua mãe Helena, filhos e netos de imigrantes, garantam o espaço de ventura que é capaz de dar origem a uma família como a deles, 14 filhos, 13 sobreviventes, que fazem de suas vidas das mais belas histórias humanas em nosso país. Além de Dom Paulo, diversos irmãos e irmãs religiosos, está a pequena Zilda, irmã especial de nosso homenageado, hoje das maiores expressões mundiais em defesa da criança pobre neste globo terrestre. Não é à toa, é fruto deste caldo cultural familiar que foram os Arns neste país. A história desta família está cheia de passagens marcantes, merece a leitura de todos e dificulta, certamente, o trabalho de quem tem que homenageá-lo porque a limitação de tempo se nos impõe omitirmos tanta coisa…Continuemos a busca do essencial.

 

:: topo

II. A síntese primordial

A nosso ver, a síntese primordial da vida de Dom Paulo Evaristo Arns é dada pela união de Paulo e Francisco. Em nossa compreensão este é o primeiro conjunto de fatos que dá origem a Dom Paulo como é hoje: Paulo desde o seu nascimento traz o componente intelectual que vai forjar o menino colono que gosta de ler e estudar, mas que também gosta de correr e brincar pelos campos, montado em cavalo, feliz por carregar porcos e melancias, alegremente levando e trazendo boas novas…Este menino, desde cedo e tendo como inspiração seus irmãos religiosos de São Francisco, também recebe seu chamado e constrói sua vocação franciscana. Desde o Seminário Menor – para o qual vai com 13 anos, até os 24, quando se ordena padre, Francisco e Paulo estão juntos, lapidando a alma e criando a pedra preciosa do menino e jovem religioso: é franciscano, forma-se em Filosofia no Paraná e em Teologia em Petrópolis, Rio de Janeiro, mas é em Paris que aprofunda a compreensão missionária franciscana, convivendo com diferentes irmãos da ordem, de outras partes do mundo, e aprendendo a buscar a síntese entre a inserção social e a contemplação, entre o coletivo e o individual, ou mais ainda, entre o saber e o sentir. A fala de seu pai Gabriel, ao partir o filho para o seminário, expressa bem a síntese de Dom Paulo: ser padre mas não negar as origens de colono, similar à sensação de aportar em Paris, décadas depois, com fenótipo branco alemão mas sentir-se um caboclo brasileiro. Este é Dom Paulo Evaristo Arns, nosso Cardeal Brasileiro, Paulo pelos escritos que produziu e Francisco pela vocação que assumiu, em ambos buscando Cristo com determinação, em ambos padre, em ambos identificado com os pobres e "gentios" deste país…

 

:: topo

III. O caminho inicial – De esperança em esperança…

Sua formação – a etapa preparatória da missão – foi dada sob a égide destes dois exemplos, que foram São Paulo e São Francisco, e que ele vai seguir tão bem. Mas também compartilhado pela vivência com os colegas de estudo, com as comunidades que habitou, desde as origens: entre Rio Negro/Santa Catarina, onde recebe o hábito em 1939, faz o noviciado em 40 e professa os votos de obediência, pobreza e castidade em 43; Curitiba/Paraná, entre 1941 e 43, onde concluiu o curso de Filosofia e fez a profissão solene à Ordem Franciscana; e em Petrópolis/Rio de Janeiro, onde recebe, em 1945, a ordenação sacerdotal e volta à terra natal para rezar sua primeira missa. Imaginem a alegria de seus pais, Gabriel e Helena, e de toda a colônia amada! O lema então era de "esperança em esperança"… Mesmo estando posteriormente em Paris, tal simbiose mostra-se presente, com a vivência acadêmica e comunitária que tem. Mesmo sem estar formalmente inscrito, paralelamente à Sorbonne, frequenta em Paris a Universidade Católica, sendo fecundado pela Nouvelle Teólogie/Nova Teologia, quando adentrará em idéias sobre uma nova igreja, mas experimentará os primeiros temores relativos ao poder institucional, desta feita partindo da Cúria Romana, e que posteriormente também se fará sentir na América Latina e especialmente no Brasil da ditadura militar, com a reação religiosa e governamental à Teologia da Libertação. Voltando ao Brasil, após uma pequena parada no convento de Santo Antônio no Rio de Janeiro, vai para Baurú, São Paulo, onde é prefeito e leciona no Seminário de Baurú, colocando em prática a pedagogia de Paulo Freire, mas também ensinando literatura moderna e língua francesa na Faculdade do Sagrado Coração de Jesus. Continua a síntese entre Paulo e Francisco ! Seguem-se estágios em Juiz de Fora/Minas Gerais e a volta a Petrópolis, no Rio de Janeiro, desta feita para ser "mestre" dos clérigos, respondendo pela formação teológica dos futuros sacerdotes, dando aulas de Patrologia e História Antiga da Igreja, além de dar apoio à Editora Vozes na produção de revistas e jornais. Durante a inserção no ensino superior, escreveu uns 50 livros e respondeu por três programas de rádio. A sua quarta incumbência em complementação às anteriores, terminou sendo a de ser escolhido, aos 40 anos, para Vice-Provincial dos Franciscanos, respondendo, junto com o Frei Walter Kempf, famoso entomólogo, pelo território que ia do Espírito Santo e Minas Gerais até o Rio Grande do Sul. Se este cargo o afastou das funções anteriores, não impediu que sua produção intelectual continuasse, novamente mantendo Francisco e Paulo juntos neste homem Dom Evaristo, que freqüentemente percorria a província franciscana, mas que, ao passar a frequentar as favelas de Petrópolis começa a penetrar mais contundentemente na vivência de uma opção definitiva e profunda pelos pobres e abandonados – e torna-se o Padre dos Pobres, tal e qual santos franciscos de nossos dias. Entretanto, será na sua próxima síntese que a cidade de São Paulo o conhecerá como o Bispo dos Presos, para completar-se – em sua atuação mais pública, como o Arcebispo dos Direitos Humanos, conhecido por todos no Brasil.

 

:: topo

IV. A Revelação: Da Esperança à Utopia do Bispo dos Presos, Arcebispo de São Paulo e Cardeal do Povo Brasileiro!

Após 10 anos, Dom Paulo deixa Petrópolis – com uma rápida passagem por Roma – para, posteriormente, ser ordenado Bispo Auxiliar, tomando posse na região norte de S.P em 24 de julho de 1966. Ressaltando alguns fatos deste momento inicial: ele atendeu ao desejo direto e explícito do Papa Paulo VI, mas se atemoriza e chora compulsivamente, no dia 2 de maio de 1966, aos 45 anos, sózinho na Praça de São Pedro, frente a dimensão da responsabilidade. No entanto, a nosso ver, ainda não será esta a maior responsabilidade de sua vida ! Atende à vontade de sua mãe para que sua ordenação se dê em Forquilhinha (6/7/66), por lembrança e respeito às suas origens, e o faz com emoção. Assumindo sua função, começa a implementar a Igreja Missionária, com envolvimento dos leigos e atendendo à orientação do Concílio Vaticano II. Também incorpora as recomendações do Papa João XXIII para uma ação de emergência frente às migrações na América Latina, do campo para a cidade, baseada em "amizade, fé e culto". Para termos a dimensão do problema, a cada período de seca no nordeste, centenas de milhares de nordestinos migravam para São Paulo, num único ano tendo atingido 600.000 pessoas, que passam a viver em condições urbanas precaríssimas. As ações concretas na sua prelazia tiveram consequências muito positivas para além do ponto de vista da organização comunitária, para a evangelização, não só dos migrantes mas também dos católicos locais, nos movimentos específicos das pastorais. Assume completamente o Concílio Ecumênico "como inspiração de toda a pastoral e da mentalidade moderna da igreja em nossa região". Na reunião dos Bispos da América Latina em Medellín/Colômbia, Paulo VI, antes de morrer lança as bases para que o Concílio renovasse a América Latina: "não era tempo só de falar, mas sobretudo de agir". Foram produzidos, nesta reunião, 16 documentos finais que D. Paulo dedicou-se a cuidadosamente traduzir para o português. O Concílio do Vaticano II e a Conferência Episcopal de Medellín, além da própria Bíblia, constituem-se no fundamento da ação pastoral denominada "Missão do Povo de Deus", magistralmente realizada pelas Comunidades Eclesiais de Base/CEBs da região norte de São Paulo, mais do que sob a coordenação de Dom Paulo, com sua permanente presença nas reuniões locais. As Campanhas da Fraternidade assumem uma dimensão especial e causam um impacto muito maior no país. Seu exemplo para outras regiões foi definitivo para a disseminação desta forma de atuar na evangelização das comunidades, tendo chegado mesmo a preparar comunidades distantes, como foi o caso de Roraima, na Amazônia (fevereiro de 1969). Estava claramente definida para Dom Paulo a base teórica e prática do ideal cristão que conseguia realizar-se em ações concretas junto ao povo de nosso país e é assim que, a nosso ver, incorpora-se o conceito de utopia em novo lema de Dom Paulo: tendo iniciado com "de esperança em esperança", quando ordenou-se padre, configura-se – como bispo - em "da esperança à utopia", título de seu livro auto biográfico, publicado em 2001, porque estava definida a base de sua utopia com os 3 documentos e a prática por via das CEBs estruturando a "Missão do Povo de Deus". Entretanto, desde o início de sua fase como Bispo, que Dom Paulo Evaristo Arns passa a percorrer as cadeias de São Paulo para atuar junto aos presos – experiência já vivenciada com os irmãos franciscanos, especialmente europeus, no passado, em Paris. E é nesta fase que começa a atender os presos políticos do regime ditatorial brasileiro, como a irmã Maurina Borges, expatriada para o México em troca da libertação do Embaixador Suiço seqüestrado; e a perceber que a tortura acontecia em nossas prisões, atingindo especialmente os padres e freiras presos, dos quais Frei Giorgio Callegari, Frei Beto, Frei Tito, e o então seminarista Roberto Romano são os exemplos mais conhecidos. Com a transferência de Dom Agnelo Rossi, seu superior, para Roma, o Papa Paulo VI o indica, em outubro de 1970, para Arcebispo da Arquidiocese Metropolitana de São Paulo, com 6 milhões de católicos, cerca de 600 padres na ativa e cinco mil irmãs atuando...

Assim é que o Bispo dos Presos transformou-se no Arcebispo de São Paulo e o grande defensor dos Direitos Humanos, defensor incondicional da vida e da dignidade humana…Ultrapassará os limites de São Paulo e passará a servir, em tempos muito cruéis e dolorosos, de fonte de vida e esperança para todo o Brasil, como o Cardeal do Povo.

Iniciou sua atuação na arquidiocese vendendo o Palácio Pio X para dar início à "Operação Periferia", comprando mais de 1.200 terrenos para a construção de centros comunitários que também servissem de apoio aos migrantes mais necessitados. Reestruturou a organização setorial da arquidiocese, dando início a uma intensa descentralização do processo pastoral, com a evangelização deixando de ser do centro para a periferia e passando a acontecer a partir das próprias comunidades, reforçadas por um programa de dois anos para a capacitação de "milhares e milhares" de leigos, segundo o próprio Dom Arns, nos ministérios da palavra, da eucaristia, da saúde, do batismo, do matrimônio e agentes especializados em direitos humanos, colaborando com as comissões e centros importantes para a luta dos perseguidos e injustiçados. Em 5 de março de 1976, junto com outros 20, é instituído Cardeal pelo Papa Paulo VI. Sua obra, ao longo de todo o período nesta arquidiocese é monumental e de impacto definitivo na organização popular. Contribui definitivamente para a redemocratização deste país. O trabalhador do campo deslocado de suas raízes – como foi sua origem familiar – integra-se, no seu ofício religioso, com o trabalhador das cidades, depauperado pelas péssimas condições de vida urbana. Sua utopia já está completamente definida pelos documentos mais recentes da igreja e pelo permanente estudo da Bíblia e, nesta etapa, consegue transformar em ação todas as crenças que tem para o trabalho pastoral. Todas as suas ações estão voltadas para a diminuição das injustiças sociais, muitas iniciativas acontecem em sua arquidiocese, mas merece especial referência o seu trabalho em defesa dos presos políticos e dos refugiados das ditaduras latino-americanas.

Além de implementar metodologias para o trabalho comunitário que serviram de parâmetro missionário para todo o país, o seu trabalho na formação de religiosos é primoroso, tanto aumentando e melhorando a formação dos padres, que descentraliza e acontece mais no seio das comunidades, quanto dos leigos para o exercício dos diversos ministérios, potencializando sobremaneira a atuação evangelizadora pelas comunidades eclesiais de base. Consegue estruturar um trabalho ecumênico que junta diversas denominações cristãs com a judaica, principalmente. Neste sentido, o Pastor James Wright, presbiteriano, passa a ser seu grande e permanente colaborador. Solidariza-se com os movimentos operários e as grandes greves ocorridas no ABC. Imensas passam a ser as comemorações religiosas na Praça da Sé, centro de S.P. Fortalece a atuação das mulheres na igreja, para as quais, cada vez mais, busca reservar papel especial.

Em 1971 reaje às prisões que ocorreram e monta um esquema muito eficiente de informações e reações a elas. As CEBs elegem a defesa dos direitos humanos como em primeiro lugar para o trabalho da CNBB, padres e todos os cristãos brasileiros. Com a morte do operário Santo Dias da Silva montou a Comissão Arquidiocesana de Direitos Humanos. De 1970 a 1986 dispõe de um centro de informações da mais alta credibilidade neste país. Colabora decisivamente para a publicação do livro Brasil:Tortura Nunca Mais, que vai servir de referência para a identificação de presos e torturadores, tendo inclusive projeção na América Latina, para a qual também desenvolve todo um sistema de apoio aos refugiados. Assim é que a pastoral do Direitos Humanos amplia seus trabalhos e as reações da sociedade aos desmandos da ditadura tornam-se cada vez mais fortes. Muitas foram as ocorrências emblemáticas deste período e Dom Paulo enfrentou-as todas: a morte do estudante Alexandre Vanucchi Leme; a cassação da Rádio 9 de Julho (1973); a morte do jornalista Wladimir Herzog, torturado no DOPS de S.P.; a invasão da PUC/SP (1977) e, tempos depois (1984) os dois incêndios de seu teatro, TUCA. Inúmeros foram os interrogatórios de presos políticos que Dom Paulo pôs-se presente, adentrou em inúmeras cadeias, buscou informações sobre desaparecidos etc… Teve a colaboração decisiva de muitos, especialmente as grandes personalidades brasileiras reunidas na Comissão de Justiça e Paz da arquidiocese, como Dalmo Dallari, José Carlos Dias, Fábio Comparato, José Gregori, o advogado Greenhald, Carvalho de Jesus e Nadir Kfouhri, além do pastor James Wright; a dedicação de Waldemar Rossi, operário da Frente Nacional do Trabalho; e de Plínio de Arruda Sampaio.

Desde o início dos seus trabalhos como Bispo de São Paulo que busca intermediar a questão da tortura entre presos, familiares e autoridades. Não se ateve a presos políticos mas a todos que tinham seus direitos vilipendiados, jamais tendo perguntado sobre a religião dos que defendeu. Leva provas de tortura pessoalmente às altas esferas, como os generais Médici e Geisel, ou por meio de carta, como a que enviou ao general comandante do 2º Exército, Ednardo Mello. Por diversas vezes interagiu com o general Golbery ou com os comandantes do Exército em São Paulo, sempre na tentativa de superar os problemas observados nas prisões. Com a mesma naturalidade com que convivia com as populações carentes, convivia com as autoridades do país, substituindo a docilidade com os primeiros pela firmeza com os segundos. Isto certamente contribuiu muito para as mudanças observadas no Brasil dos anos 80. Foi ameaçado, escapou de "acidente" premeditado por militares da ditadura, sofreu injustas discriminações e ofensas, mas nada abalou a determinação com que exercia sua missão de pastor do rebanho de Deus. Por estas defesas que assumiu, sempre teve autoridades governamentais contra sí. No entanto, desde que a Editora Vozes transferiu-se de Petrópolis para São Paulo e que o "imprimatur" passou a ser seu, maior autoridade eclesiástica local, também a Cúria Romana passa a colocar-se contra ele. O quanto, não se sabe, mas todas as suas tentativas de esclarecimento foram respondidas com o silêncio. Ele exime o Papa, localiza na assessoria suas dificuldades. Sua identificação com a Teologia da Libertação é o motivo desta reação romana. Finalmente, em 2001, em seu livro autobiográfico, divulga o documento enviado a Roma em 1984, elaborado pelos teólogos de São Paulo sobre a posição em relação aos princípios fundamentais daquela teologia, mas até hoje está sem resposta…

Transformou-se em ícone nacional e popular, virou o Cardeal do Povo do Brasil, recebendo inúmeros títulos, inclusive de "Cardeal da Cidadania", pelo Sindicato do Jornalistas de São Paulo, em 1978.

Além de tudo isso, constrói, em 1993, a Casa do Clero de São Paulo, para receber os padres aposentados e até então muito desamparados. Com o dinheiro de um de seus prêmios (Niwano, Tóquio, 1994) dá início à construção da Casa da Oração do Povo da Rua, em 1997 concluída.

Com todo este longo percurso religioso, de mais de 50 anos, dos quais mais de 28 naquela arquidiocese de São Paulo, também causou grande impacto internacional, tanto em participações nos organismos romanos quanto em viagens por todo o mundo. Só aos EUA, em 28 anos fêz 18 viagens e recebeu inúmeros títulos de Doutor Honoris Causa; esteve na Irlanda, México , Holanda, Inglaterra, Bélgica, Alemanha, Áustria, França, Canadá, Espanha, Japão, Portugal, Suécia, Tunísia, Jordânia, Paraguai, Chile e Perú, dentre outros e com frequência por mais de uma vez, para narrar sua experiência em São Paulo, suas concepções sobre fé, religião e sociedade. Tornou-se uma figura de tal dimensão que a ditadura brasileira nada mais podia fazer para impedir seu trabalho missionário. Esta dedicação integral à causa dos desamparados e injustiçados pela sociedade é que faz dele, na verdade, o Cardeal dos Pobres. A dimensão de sua estatura humana pode ser exemplificada pelo número de biografias a seu respeito, sete, além de sua própria auto biografia, recentemente publicada. Sem dúvida, das maiores personalidades históricas que este país já produziu, não sem dores fortes para ele, mas certamente com a convicção de que à cruz segue-se a glória.

 

:: topo

V. Sobre o amor que move o mundo e não a violência, mas com "Firmeza Permanente"

"Pobres não são apenas os privilegiados pela opção dos bispos, mas também mestres de toda a caminhada com Deus". É assim que Dom Evaristo vê aqueles a quem dedica até hoje sua vida, seu amor. Por eles assumiu todo o sofrimento das perdas, com esperança. À violência contrapôs "firmeza permanente". Considera a esperança a mais difícil das virtudes teológicas e justifica: "a fé é um dom de Deus … o amor é um sentimento espontâneo, vem do coração humano. A Esperança não… descobri que a esperança não é uma virtude para si mas para a comunidade. A utopia, por sua vez, tornou-se a meta do povo brasileiro…é a união de todas as esperanças para a realização do sonho comum. Se realizarmos este sonho, teremos construído uma nova realidade". Estas são as palavras com que conclui seu livro auto biográfico e com as quais nós – seus discípulos – começamos a nos transformar. O caminho trilhado por este filho de Cristo, irmão de todos nós vem sendo sempre o caminho-síntese de Paulo e Francisco, dois santos, origem e fim de todas as ações deste grande Homem brasileiro, nosso "caboclo-alemão" ...

Dom Paulo: é a Universidade de Brasília que se engrandece por ter Vossa Excelência como seu Doutor Honoris Causa. Mas este diploma não pode dever-se exclusivamente à escola acadêmica, mas à escola da vida. Além de toda a vossa produção intelectual em pról da Humanidade e da Paz, muito vós fizestes em pról dos pobres, abandonados e perseguidos de nosso país e é por isso que esta universidade o homenageia hoje.

Não tinha teto e vós me abrigastes
Estive doente e vós me apoiastes
Fui perseguido e vós me ajudastes
Estive preso e vós me visitastes
Tive fome e vós me alimentastes
Envelhecí e vós me amparastes...

Vós dissestes:

"Quero ser lembrado como amigo do povo ...simbiose entre o pastor e seu rebanho...Deus me deu o nome e a missão de Paulo..."

" A Democracia plena ainda não chegou. Ela só pode chegar dentro do espírito de solidariedade. Herança e ideal: o amor devotado ao povo".

Dom Paulo Evaristo Arns, o grão de mostarda que fez-se frondosa árvore, nós conselheiros desta universidade, queremos tê-lo entre nós como DOUTOR HONORIS PAUPERIS CAUSA O DOUTOR CUJA HONRA É TAMBÉM A CAUSA DOS POBRES.

Muito Obrigado !

 

:: topo

Copyright © 2007 Universidade de Brasília. Todos os direitos reservados.