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Pronunciamento do Prof. Darcy Ribeiro – Doutor Honoris Causa da
Universidade de Brasília
Saudações a Eminências
Queridos amigos,
Aqui estou, emocionado. Vivo de corpo inteiro, de alma tensa,
esta hora de glória tão esperada. Vivi emoções semelhantes frente a
outras universidades, que me armaram louvações. Maior é minha emoção
agora. A Universidade que tenho, exageradamente embora, por filha
minha, lava os olhos para me ver tal qual sou, aceitando meus
defeitos, atribuindo-me qualidades.
Quisera, hoje, ter a mente clara como nunca, e um corpo que
respondesse inteiramente a meu comando, para dizer aquela fala sábia
e sentida que cabe nesta hora. Qual? O destino nos arma tropeços, e
eu vivo um deles, tolhido. Pensei fundamente em temas que poderia
desdobrar aqui. Pensei até no modo de dizê-los. Bem podia usar,
modestamente, um timbre camoniano:
Errei todo o discurso dos meus anos.
Acrescentando ainda, com a fala do zarolho:
Erros meus, má fortuna, amor ardente
Em minha perdição se conjugaram
Tudo isto para dizer, vaidoso, que não errei tanto. Acertei muito
mais que errei. Prosseguiria recordando umas poucas de tantas
bobagens que fiz, algumas frustrações que experimentei, apenas para
constrastá-las com um elenco de esplêndidas realizações. Mas essa
minha mágica oratória envelheceu. O que se pede hoje, aqui, agora, é
um pouco da verdade das coisas.
Primeiramente, a crua verdade de que nada me comoveu tanto em
minha vida de tantas emoções desencontradas como saber que este
campus da Universidade de Brasília levará doravante meu nome. Será o
Campus Universitário Darcy Ribeiro, uma glória que satisfaz, a
pleno, pela primeira vez, minha sede insaciável de elogios.
A lembrança que me veio, instantaneamente, ao sabê-lo, foi a da
noite vivida aqui há trinta anos, logo depois que essa faixa de
terras entre a Asa Norte e o Lago foi concedida à nossa Universidade
nascente. Vim com uma amiga, percorremos este campus, que era uma
macega, andando por cada trilha que se abria à nossa frente.
Primeiro vimos, daqui, com pasmo carioca nos olhos, o esplendor do pôr-de-sol de Brasília de que fruímos longamente. Depois, deitados
por aí, vimos o céu se acender, cintilando estrelado. Lá ficamos,
olhos no céu, olhando o universo mover-se. Eu, se fosse ciente,
deveria ter, naquela hora, o sentimento profundo, que minha
inciência não via, de que conquistara um bom pedaço do planeta Terra
para nele edificar a Casa do Espírito, enquanto saber, cultura,
ciências: a Universidade de Brasília, nossa UnB.
Meu sentimento hoje é o de reencontro com minha filha querida, já
passada dos trint’anos, que assoma como uma primeira encarnação do
que houvera sido, se tantas provações não lhe caíssem em cima. A
ditadura militar regressiva e repressiva que avassalou o Brasil,
assaltou furiosa nossa universidade, ainda menina. Acompanhei, em
angústia indizível, desde o exílio, o que aqui sucedia. Cheguei a
pensar loucuras, como a pretensão de que o Governo aceitasse minha
entrega à prisão em troca de paz para a universidade. Pretensões
minhas, eu era nada e não sabia.
Poucas coisas me doeram tanto, talvez nenhuma me doeu assim, como
saber, um dia, que a imensa maioria dos sábios que trouxera para cá,
em defesa da dignidade desta Universidade, por não aceitarem seu
avassalamento, saíram em diáspora mundo afora. Eram mais de duzentos
sábios e aprendizes, selecionados por seu talento, para plantar aqui
a sabedoria humana. Cada um deles recebeu, com o contrato, um
apartamento mobiliado, porque tudo deixaram ao virem para cá. Agora,
se dispersavam, de mãos vazias, buscando algum trabalho nas
universidades nacionais, também perseguidas e para eles fechadas, ou
no estrangeiro.
Peço a todos vocês que me ouvem que sintam por um momento, no
íntimo de seus corações, a angústia daqueles homens e mulheres,
vítimas do ato mais violento da ditadura militar contra a
universidade brasileira. Cada um deles levaria no peito, pela vida
afora, um fundo sentimento de orfandade pela Universidade sonhada e
perdida. Ainda hoje, onde estiverem, recordam aqueles poucos anos de
alegre criatividade, de convivência amiga, de esperança
co-participada que viveram aqui, como instâncias estelares de suas
vidas.
Só muito lentamente, ao longo de sofridas décadas, essa nossa
Universidade de Brasília começa a renascer. Isto se dá pelo trabalho
recôndito, silente, daqueles que se fizeram aqui o sal de sua carne.
Retomaram nosso ideal de implantar nesta cidade-capital do Brasil
uma comunidade autônoma e independente de sábios capazes de operar
em duas órbitas. A de dominar todo o saber humano, para ganhar
existência própria dentro da comunidade científica mundial, tarefa
indispensável para que o Brasil realize as suas potencialidades. E
também a de acercar-se ao nosso povo mais humilhado e oprimido, para
buscar os caminhos de sua libertação e prosperidade.
Haverá quem pense que a universidade, como a matriz de reprodução
das classes dirigentes da sociedade dentro de uma civilização, tem
mais a ver com a prosperidade dos ricos que com o destino dos
pobres. É até moda em nossos dias delegar aos automatismos da
História as tarefas da redenção social, cuidando que os ricos mais
enriquecidos socorrerão os pobres.
Essa postura, ou seu equivalente que é o desinteresse pelo bem
público, é compreensível em acadêmicos de países realizados. Eles
estão em posição tão favorável no fluxo evolutivo, que o
funcionamento espontâneo da sociedade os levará à vanguarda dos
povos. Aliás, lá, ninguém esperou nunca nenhuma contribuição
fundamental dos teóricos da universidade.
Essa não pode ser a concepção de uma universidade que se quer
central e inspirada de um País que não deu certo. As classes
dirigentes entre nós foram e são as responsáveis maiores por nosso
fracasso histórico. São também culpadas pelo tipo de prosperidade
mesquinha que temos, incapaz de estender-se ao povo. Em nossas
circunstâncias, é tarefa da Universidade criar intencionalmente
elites novas. Elites orgulhosas do patrimônio que herdamos do
passado - um território continental e um povo multitudinário,
unificados em uma nação cheia de vontade de felicidade e de
progresso, pronta para florescer corno una nova civilização. Mas
sobretudo elites cheias de indignação frente a realidade sofrida do
Brasil. Elites fiéis ao nosso povo, prontas a reconhecer que nossa
tarefa maior é nos elevarmos à condição de uma sociedade justa e
próspera, de prosperidade generalizada a todos.
Quero crer que a minha chegada aqui, hoje, com o novo Reitor,
Professor Todorov, é um marco avançado, que se soma a muitos outros
implantados antes, da retomada de uma das ambições maiores da
intelectualidade brasileira, encarnada nesta Universidade de
Brasília. Longas e árduas foram as batalhas que travamos para chegar
a essa hora de cumprimento dos desígnios da UnB. As próximas décadas
serão também de lutas, das gratas lutas dos florescimentos do
renascer.
Antevejo algumas dessas batalhas. A primeira delas é reconquistar
a institucionalidade da lei original, que criou a Universidade de
Brasília como organização não-governamental, livre e
autoconstrutiva. Simultaneamente, cumpre libertar-nos da tutela
ministerial, assumindo plenamente a responsabilidade na condução de
nosso destino. Inclusive e principalmente, seu caráter de
universidade experimental, livre para reinventar o ensino superior
de graduação e pós-graduação, fazendo deles instrumentos de
liberação do Brasil. É por igual indispensável definir seu
professorado como um corpo de pesquisadores que dão aulas, fugindo
do sistema infecundo de professorado por disciplina, que incapacita
as universidades brasileiras para o cumprimento de seus objetivos.
Atentem bem! Tenham cuidado comigo. Já comecei, como se vê, a dar
conselhos. Se me deixarem livre, prosseguirei na pregação. Esse é um
pendor inelutável. Para comprová-lo, deixem-me dizer que tenho
horror ao democratismo que anda solto pelo ar, quebrando o caráter
da universidade como instituição necessariamente hierárquica e
hierarquizadora. Esse é um feio pecado meu, combatendo a cátedra
todo-poderosa de então, querendo instituir uma departamentalização
vigorosa, igualizei bisonhos aprendizes a sábios maduros, cegando os
jovens na inciência e incapacitando-os a aprender.
Para compensar essa frustração, alegarei aqui um acerto nosso,
que foi a ascensão ao quarto nível, o da pós-graduação. Façanha da
Universidade de Brasília que se deve a Anísio Teixeira. Graças à sua
implantação aqui e a sua difusão por todo o País, o Brasil já
multiplicou várias vezes os estudos monográficos com que se contava
sobre temas e problemas relevantes. Mas chega de advertências,
ponderações e conselhos.
Olhando para o futuro, nostálgico de mim e dos velhos tempos, o
que peço é que voltem ao Campus Universitário Darcy Ribeiro aquela
convivência alegre, aquele espírito fraternal, aquela devoção
profunda ao domínio do saber e a sua aplicação frutífera. Éramos uns
brasileiros apaixonados pelo Brasil, prontos a refazê-lo como um
projeto próprio, que fosse a expressão da vontade dos brasileiros.
Não éramos mesmo compatíveis com a ditadura que se instaurou contra
o povo e contra a Nação. Foi num ato de defesa própria que a
ditadura dispersou aquele corpo de professores irredentos. Eles
acreditavam que fôssemos perigosos. Gosto de pensar que éramos
mesmo.
Obrigado, amigos queridos, por me aceitarem tal qual sou. Não
tenho mais tempo para melhorar. Mas necessitava muito dessas
expressões de admiração e carinho. Sou, sempre fui, um ser
confessadamente carente de elogios.
Obrigado.
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