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Discurso do Professor Celso Furtado
Local: Auditório Dois Candangos
Data: 1º de novembro de 1991
Os novos desafios
O trabalho intelectual que realizei no curso de quatro decênios –
razão de ser da honrosa homenagem que hoje me prestam os membros do
corpo docente desta Universidade – teve seu ponto de partida no
desejo, que cedo me dominou, de descobrir as razões de nosso atraso
no processo de industrialização que se afirmou a partir da segunda
metade do século XVIII. Desde que percebi o alcance do impacto da
Revolução Industrial na divisão internacional do trabalho, captei a
gênese do fenômeno do subdesenvolvimento, o que me permitiu montar o
quadro conceitual dentro do qual eu construiria o essencial de minha
obra. Daí a visão global do desenvolvimento e do subdesenvolvimento
como dimensões de um mesmo processo histórico e a idéia de
dependência como ingrediente desse processo.
Pareceu-me que, para compreender o processo de formação do
sistema econômico que tendeu a mundializar-se e teve como ponto de
partida a aceleração da acumulação e do progresso técnico que marcam
o começo da era contemporânea, faz-se necessário abarcá-lo de dois
ângulos. O primeiro desses ângulos enfoca as transformações do modo
de produção, ou seja, a destruição total ou parcial das formas
senhorial, corporativa e artesanal de organização da produção, e a
progressiva implantação de mercados dos fatores produtivos:
mão-de-obra, os instrumentos de trabalho e os recursos naturais
apropriados privativamente.
O segundo ângulo concerne à ativação das atividades comerciais
ligadas à implantação de um sistema de divisão do trabalho
interregional. Nesse sistema, as regiões em que ocorreu a
intensificação da acumulação especializaram-se nas atividades
produtivas em que a revolução em curso no modo de produção abria
maiores possibilidades ao avanço das técnicas, transformando-se em
focos geradores do progresso tecnológico. Por seu lado, a
especialização geográfica, graças aos defeitos das vantagens
comparativas em um mercado em expansão, também proporcionava
aumentos de produtividade ali onde se procedia a uma utilização mias
eficaz dos recursos produtivos disponíveis, independentemente de
avanços nas técnicas de produção. Esses aumentos de produtividade,
apoiados essencialmente no intercâmbio externo, serviam de correia
de transmissão das inovações na cultura material que acompanhavam a
intensificação da acumulação nos países que formavam a vanguarda da
Revolução Industrial. Dessa forma, em regiões privilegiadas o
progresso técnico penetrou sem tardança nas formas de produção, ao
mesmo tempo que os padrões de consumo, limitando seus efeitos à
modernização do estilo de vida de segmentos da população. É verdade
que o processo de industrialização em fase subsequente tenderia a
universalizar-se mediante o que se chamou de substituição de
importações. Mas a industrialização tardia regida pelas leis do
mercado tendeu a reforçar as estruturas sociais existentes em razão
de sua fraca absorção de mão-de-obra e da forte propensão a consumir
dos segmentos modernizados da sociedade.
O subdesenvolvimento, por conseguinte, é uma conformação
estrutural produzida pela forma como se propagou o progresso
tecnológico no plano internacional.
Essa visão global do processo histórico do capitalismo industrial
levou-me à conclusão de que a superação do subdesenvolvimento não se
daria ao impulso das simples forças do mercado, exigindo um projeto
político voltado para a mobilização de recursos sociais que permita
compreender um trabalho de reconstrução de certas estruturas. Daí
que eu me haja empenhado, desde a época em que trabalhei na CEPAL
nos anos 50, em elaborar uma técnica de planejamento econômico que
viabilizasse com mínimo custo social a superação do
subdesenvolvimento. Essa técnica objetivava modificar estruturas
bloqueadoras da dinâmica sócio-econômica, tais como latifundismo, o
corporativismo, a canalização inadequada da poupança, o desperdício
desta em formas abusivas de consumo e sua drenagem para o exterior.
As modificações estruturais deveriam ser vistas como um processo
liberador de energias criativas, e não como o trabalho de engenharia
social em que tudo está previamente estabelecido. Seu objetivo
estratégico seria remover os entraves à ação criativa do homem, a
qual, nas condições de subdesenvolvimento, está coarctada por
anacronismos institucionais e por amarras de dependência externa.
Eu tinha consciência de que o verdadeiro desenvolvimento dá-se
nos homens e nas mulheres e tem importante dimensão política. Como
ignorar que foi porque a partir de 1964 paralisamos nosso
desenvolvimento político – em realidade, retrocedemos nesse plano
enquanto nossa sociedade crescia e se fazia mais complexa – que nos
tornamos um país de difícil governabilidade, que destrói recursos
escassos e acumula problemas de forma alucinante ?
A visão global também me fez perceber, desde começos dos anos 70,
que a fratura do desenvolvimento se faria mais deformante à medida
que se aprofundasse a crise manifesta que aflige a civilização
consumista que se planetarizou. Que é inerente a essa civilização um
processo depredador, já o sabíamos há tempo: as fontes de energia em
que se funda o estilo de vida que ela estimula caminham para a
exaustão, eleva-se a temperatura em nosso ecúmero e é progressivo o
empobrecimento da biosfera.
Não podemos escapar à evidência de que a civilização criada pela
Revolução Industrial aponta de forma inexorável para grandes
calamidades. Ela concentra riqueza em benefício de uma minoria cujo
estilo de vida requer um dispêndio crescente de recursos não
renováveis e que somente se mantém porque a grande maioria da
humanidade se submete a diversas formas de penúria, inclusive à
fome. Uma minoria dispõe dos recursos não renováveis do planeta sem
preocupar-se com as conseqüências para as gerações futuras do
desperdício que hoje realiza.
É certo que a engrenagem do subdesenvolvimento constitui um
eficiente mecanismo para minorar a pressão sobre os recursos ao
reduzir o nível de consumo da grande maioria da humanidade, se bem
que também contribua para elevar o coeficiente de desperdício ao
difundir padrões de consumo sem correspondência com os baixos níveis
de renda das populações. Para assegurar que essa exclusão seja
efetiva, em face da excitação a novas formas de consumo que irradiam
dos centros culturalmente dominantes e da pressão demográfica nos
países pobres, é de presumir que métodos cada vez mais drásticos
sejam postos em prática. A pressão financeira exercida sobre os
países pobres que caíram na armadilha do endividamento externo
parece antecipar os sistemas de controle que poderão ser exercidos
no futuro com o objetivo de conter a expansão do consumo no mundo
subdesenvolvido.
O desafio que se coloca no umbral do século XXI é nada menos do
que mudar o curso da civilização, deslocar o seu eixo da lógica dos
meios a serviço da acumulação num curto horizonte de tempo para a
lógica dos fins em função do bem-estar social, do exercício da
liberdade e da cooperação entre os povos. Devemos nos empenhar para
que essa tarefa maior dentre as que preocuparão os homens no correr
do próximo século: estabelecer novas prioridades para a ação
política em função de uma nova concepção do desenvolvimento, posto
ao alcance de todos os povos e capaz de preservar o equilíbrio
ecológico. O fantasma do subdesenvolvimento deve ser exorcizado. O
objetivo deixaria de ser a reprodução dos padrões de consumo das
minorias abastadas para ser a satisfação das necessidades
fundamentais do conjunto da população e a educação concebida como
desenvolvimento das potencialidades humanas nos planos ético,
estético e da ação solidária. A criatividade humana, hoje orientada
de forma obsessiva para a inovação técnica a serviço da acumulação
econômica e do poder militar seria orientada para a busca da
felicidade, concebida esta como a realização das potencialidades dos
indivíduos e das comunidades vivendo solidariamente.
A idéia nova que começa a despontar é a de responsabilidade dos
países que constituem a vanguarda da civilização industrial com
respeito às destruições custosamente reparáveis causadas ao
patrimônio comum da humanidade constituído pelos bens naturais. A
Conferência das Nações Unidas sobre Meio-ambiente e Desenvolvimento,
a realizar-se no Rio de Janeiro no próximo ano, constituirá a
plataforma em que pela primeira vez será defendida a tese de que
existe uma fatura ecológica a ser paga pelos países que, ocupando
posições de poder, se beneficiaram da formidável destruição de
recursos não renováveis, ou somente renováveis a elevado custo, que
está na base do estilo de vida de suas populações e do modo de
desenvolvimento difundido em todo o mundo por suas empresas. Em
trabalho recente da CEPAL, apresentado à Conferência de Tlatelolco,
no México, foram definidas as responsabilidades dos países ricos em
cinco áreas em que é particularmente grave a degradação do
meio-ambiente: o esgotamento da camada de ozônio, o aquecimento do
planeta, a destruição da biodiversidade nos países do Terceiro
Mundo, a poluição dos rios, oceanos e solos, e a exportação de
resíduos tóxicos.
A partir de duas idéias-força – prioridade para a satisfação das
necessidades fundamentais explicitadas na Declaração Universal dos
Direitos Humanos, no quadro de um desenvolvimento orientado para
estimular a iniciativa pessoal e a solidariedade; e responsabilidade
internacional pelo desgaste do patrimônio natural –, será possível
desenhar o modelo de desenvolvimento a ser progressivamente
implantado no próximo século.
Os objetivos estratégicos são claros:
- Primeiro: preservar o patrimônio natural, cuja dilapidação
atualmente em curso conduzirá inexoravelmente ao declínio e ao
colapso de nossa civilização.
- Segundo: liberar a criatividade da lógica dos meios (acumulação
econômica e poder militar) a fim de que ela possa servir ao pleno
desenvolvimento de seres humanos concebidos como um fim, portadores
de valores inalienáveis.
Esses objetivos devem ser vistos como um projeto cuja realização
requer, senão a cooperação de todos os povos, pelo menos a
conscientização progressiva da maioria deles. Diante da ameaça de
destruição da espécie humana surgida com a acumulação das armas
termonucleares, emergiu o embrião de um corpo político que está
dando origem a vínculos de interdependência entre os povos que
transcendem as relações tradicionais de dominação e dependência.
Começou então um longo e difícil aprendizado de convivência entre
povos que continuam a confrontar-se por motivos econômicos,
religiosos, culturais ou simplesmente a causa de uma herança
histórica. Esse corpo político ainda embrionário são as Nações
Unidas, organização a que dediquei dez anos de minha vida e onde
aprendi a ver o mundo como uma Babilônia de contradições que é ao
mesmo tempo uma aldeia em formação, pois forças poderosas alimentam
um processo de entrosamento entre os povos, fazendo da solidariedade
um imperativo, única alternativa ao desaparecimento.
A ameaça de destruição termonuclear, primeiro, e a hecatombe
ecológica que agora começa a configurar-se não deixam aos povos
escapatória para sobreviver fora de cooperação. E o caminho dessa
cooperação passa pela lógica dos meios, em que a acumulação a tudo
se sobrepõe.
Essa mudança de rumo, no que nos concerne, exige que abandonemos
muitas ilusões, que exorcizemos os fantasmas de uma modernidade que
nos condena a um mimetismo cultural esterlizante. Devemos assumir
nossa situação histórica e abrir caminho para o futuro a partir do
conhecimento de nossa realidade. A primeira condição para liberar-se
do subdesenvolvimento é escapar da obsessão de reproduzir o perfil
daqueles que se autointitulam desenvolvidos. É assumir a própria
identidade. Na crise de civilização que vivemos, somente a confiança
em nós mesmos poderá nos restituir a esperança de chegar a bom
porto.
Nesse novo quadro que se configura, o destino dos povos dependerá
menos das articulações dos centros de poder político e mais da
dinâmica das sociedades civis. Não que o Estado tenda a deliquescer,
conforma à utopia socialista do século XIX, mas a possibilidade de
que ele seja empolgado por minorias de espírito totalitário se
reduzirá, se a vigilância da emergente sociedade civil internacional
se faz eficaz. A consciência de que está em jogo a sobrevivência da
própria espécie humana cimentará o novo sentimento de solidariedade
e favorecerá a emergência da figura do cidadão empenhado na defesa
de valores comuns a todos os homens e que sabe que esta luta não
comporta discriminações, exceto em defesa da própria liberdade.
Não podemos fugir da evidência de que a sobrevivência humana
depende do rumo que tome nossa civilização, primeira a dotar-se dos
meios de autodestruição. Que possamos encarar de frente esse desafio
sem cegar-nos é indicação de que ainda não fomos privados dos meios
de sobreviver. Mas não podemos desconhecer que é imensa a
responsabilidade dos homens chamados a tomar certas decisões
políticas no futuro. E somente a cidadania consciente da
universalidade dos valores que unem os homens livres pode garantir a
justeza das decisões políticas.
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