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Pronunciamento do professor ATHOS BULCÃO
Para alguém da minha idade, que chegou aos oitenta anos e passou
por tantas experiências, a reunião tão simpática desta manhã, em que
de maneira tão nobre e generosa a Universidade de Brasília me
homenageia, constitui uma hora de encantamento e perturbação. Gente
como eu que vive para trabalhar, criar, de modo compulsivo, deve
pensar pouco em graus de valor ou padrões de distinção. Perdoem-me,
pois, o possível acanhamento, pois em mim o artista se mescla ao
artesão que vive imerso na simplicidade e solidão do atelier.
Neste mundo tão complexo, cada pessoa tem o seu modo próprio de
ser, de viver, de atuar. Creio que o que me marca como indivíduo é a
minha vocação artística, que não se revê-la apenas no meu trabalho,
mas é algo mais extenso, ampliando-se na busca da solidariedade e da
confraternização. Interesso-me bastante pelos trabalhos dos meus
colegas. No seu convívio, sinto motivação para trabalhar.
Provavelmente devido a isto, pude me dedicar melhor ao meu trabalho
de integração das Artes Plásticas na Arquitetura, presente em
projetos de Oscar Niemeyer, João Filgueiras Lima e outros
arquitetos.
Vim para Brasília em 1958, a convite de Oscar Niemeyer. Em 63,
convidado por Darcy Ribeiro e Alcides da Rocha Miranda, comecei a
lecionar no Instituto Central de Artes da Universidade de Brasília.
Em 65, acompanhei mais de duzentos colegas, na demissão coletiva,
conseqüência do obscurantismo imposto pela Revolução de 64.
Anistiado, voltei a lecionar até... quando me aposentei por idade
compulsória.
Artista por vocação, o magistério não estava nos meus planos.
Diante de insistência de Darcy, respondi-lhe: "Caro amigo, eu não
sei ensinar..." Ensinando, aprendi um pouco a ensinar.
A vida, para mim, foi e continua a ser uma constante indagação.
Homenagens, no mundo vário em que vivemos, há de vários tipos e
medida de importância. Quanto à que agora recebo, a concessão de tão
alto título, provindo da Universidade de Brasília, agradecendo, faço
questão de afirmar quanto ele me toca o coração. A Universidade de
Brasília tem no seu próprio nome o nome de Brasília... Essas duas
realidades, a Universidade e a Cidade, ambas extraordinárias,
marcaram minha vida com o grifo do devotamento, o emblema do dever.
O dever que nem sempre é provação mas pode ser, ao contrário, uma
iluminação. Troquei o Rio de Janeiro, minha Cidade natal, belo e
alegre, pelo cerrado, à espera de construções. A espera de alma e de
beleza.
Artista eu era. Pioneiro eu fiz-me. Devo a Brasília esse sofrido
privilégio. Realmente um privilégio: ser pioneiro. Dureza que gera
espírito. Um prêmio moral. A Universidade de Brasília partilha com
Brasília desta condição de grandeza. Grandeza, sim porque ambas
reúnem ideal, dedicação, inovação, generosidade. De modo especial, a
UnB na sua curta existência, pode orgulhar-se do numeroso grupo de
intelectuais, cientistas e artistas extraordinários que reuniu. A
excelência da UnB, hoje, atrai estudantes de várias as partes do
mundo. Eles vêm receber aqui uma lição de Brasil.
Todas essas coisas disse para salientar o contentamento com que
recebo este título que me foi comunicado pelo brilhante intelectual
Magnífico Reitor Prof. Lauro Mohry. Brasília e a Universidade de
Brasília são as duas partes de uma utopia que vivi, e que hoje vejo,
concretas, como triunfo pleno. Que mais posso desejar depois deste
momento de alegria? Muito obrigado, por tudo. |