UnB


História da Universidade de Brasília

Brasília tinha apenas dois anos quando ganhou oficialmente sua universidade federal. Inaugurada em 21 de abril de 1962, a Universidade de Brasília (UnB) já funcionava desde o início do mês, exatamente no dia 9, nas dependências do Ministério da Saúde, na Esplanada dos Ministérios. A data marcou o começo das aulas para os 413 alunos que haviam prestado o primeiro vestibular e, com ele, o da própria instituição que viria a se tornar uma das mais bem conceituadas do Brasil.

Trilhar esse caminho, no entanto, demandou esforços. A princípio até para convencer as autoridades da importância de uma universidade da capital. Ainda que o projeto original de Brasília, feito pelo arquiteto Oscar Niemeyer e pelo urbanista Lucio Costa, já previsse um espaço para a UnB – entre a Asa Norte e o Lago Paranoá -, a luta pela construção foi grande. Tudo por causa da proximidade com o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e a própria Esplanada. Algumas autoridades não queriam que estudantes interferissem na vida política da cidade. Finalmente, depois de negociações intensas, em 15 de dezembro de 1961, o então presidente da República João Goulart sancionou a lei 3.998, que autorizou a criação da universidade.

O antropólogo Darcy Ribeiro, idealizador, fundador e primeiro reitor da UnB, sonhava com uma instituição voltada para as transformações – diferente do modelo tradicional criado na década de 1930. No Brasil, foi a primeira a ser dividida em institutos centrais e faculdades. E, nessa perspectiva, foram criados os cursos-tronco, nos quais os alunos tinham a formação básica e, depois de dois anos, seguiam para os institutos e faculdades. Os três primeiros cursos-tronco eram: Direito, Administração e Economia, Letras Brasileiras, e Arquitetura e Urbanismo.

A inauguração da UnB, às 10h daquele 21 de abril de 1962, assemelhou-se em muito à própria capital. Quase tudo era canteiro de obras, pouquíssimos prédios estavam prontos. O Auditório Dois Candangos, onde ocorreu a cerimônia, havia sido finalizado 20 minutos antes. Seu nome homenageia os pedreiros Expedito Xavier Gomes e Gedelmar Marques, que morreram soterrados em um acidente durante a construção.

A instituição tinha então 13 mil metros quadrados de área construída, distribuídos em nove prédios, 35 vezes menor do que em 2006 (464 mil metros quadrados), segundo a Secretaria de Planejamento da UnB. No início, somente os estudantes de Arquitetura e Urbanismo assistiam às aulas no campus em obras, para que pudessem praticar. Os outros cursos eram ministrados no 9º andar do Ministério da Saúde. A administração e a reitoria ocupavam parte do Ministério da Educação.

:: As invasões......................................................................... :: topo

Em 1964, a ditadura instalada com o golpe militar traria anos difíceis para a UnB. Na verdade, a instituição brasiliense já era tida por setores extra-universitários como um foco do pensamento esquerdista, visão essa que só se acirrou com os militares. E, por estar mais perto do poder, foi uma das mais atingidas. Universitários e professores foram taxados de subversivos e comunistas. Comentava-se que havia uma tendência marxista na UnB, liderada pelos professores mais jovens e idealistas.

O campus foi invadido e cercado por policiais militares e do Exército várias vezes durante o ano. No dia 18 de outubro de 1965, depois da demissão de 15 docentes acusados de subversão, 209 professores e instrutores assinaram demissão coletiva, em protesto contra a repressão sofrida na universidade. De uma só vez, a instituição perdeu 79% de seu corpo docente.

Esse não foi o único ano em que as aulas foram interrompidas pelas invasões. O de 1968 foi marcado por passeatas e protestos contra o regime militar. Os alunos pretendiam mostrar à sociedade o que acontecia na UnB. Em agosto, o então reitor Caio Benjamin Dias pediu intervenção da polícia para defender o patrimônio da universidade, alegando que não conseguia controlar os estudantes. A segunda invasão, considerada a mais violenta, pelo uso de armas, destruição de equipamentos e prisões, foi desencadeada com a morte do estudante secundarista Edson Luis de Lima Souto, morto aos 20 anos no Rio de Janeiro quando a PM invadiu o restaurante Calabouço.

Na UnB, cerca de três mil alunos se reuniram para protestar contra a morte e dar o nome de Edson à praça localizada entre a Faculdade de Educação e a quadra de basquete. Esse foi o estopim para o decreto da prisão de sete universitários, entre eles, Honestino Guimarães, preso somente em 1973, no Rio de Janeiro, onde vivia na clandestinidade. Hoje, faz parte da lista dos desaparecidos políticos. Com o decreto, agentes das polícias Militar, Civil, Política (Dops) e do Exército invadiram a UnB e detiveram mais de 500 pessoas na quadra de basquete. Ao todo, 60 delas acabaram presas e o estudante Waldemar Alves foi baleado na cabeça, tendo passado meses em estado grave no hospital.

Depois desse período mais conturbado, no dia 25 de março de 1971, o professor e pesquisador Amadeu Cury assumiu a reitoria com uma proposta de reestruturação da universidade. Iniciava-se a etapa de consolidação acadêmica e física da UnB. A postura menos confrontadora da administração rendeu apoio financeiro do governo para a instituição. Na década de 1970, foram criados 14 novos cursos de graduação, um aumento de 82% em relação a 1962. Mas o clima de reconstrução e calma durou poucos anos. Com a posse do professor, doutor em Física e oficial da Marinha, José Carlos de Almeida Azevedo, em maio de 1976, as manifestações recomeçaram. Um ano após a mudança na reitoria, multiplicaram-se os protestos de alunos contra a má qualidade do ensino, ociosidade nos laboratórios, falta de professores, entre outros pontos.

A crise política da UnB ultrapassou os limites do campus. O Senado Federal criou uma comissão para interferir no conflito. Cerca de 150 professores entraram como mediadores entre a reitoria e os estudantes. Novamente, em 6 de junho de 1977, tropas militares invadiram a UnB, prendendo estudantes e intimando professores e funcionários.

:: A redemocratização............................................................. :: topo

O início da década de 1980 foi marcado pela tentativa de redemocratização da universidade. Em maio de 1984, o professor Cristovam Buarque foi o primeiro reitor a ser eleito pela comunidade universitária, assumindo a reitoria em 26 de julho de 1985. Cristovam reincorporou simbolicamente os professores que participaram da demissão coletiva em 1965.

Em março de 1989, foi criado o primeiro curso noturno na UnB, o de Administração. A instituição se adaptaria a um novo perfil de estudantes universitários. A necessidade de trabalhar durante o dia deixava vários cientistas e pesquisadores em potencial fora da única universidade pública de Brasília. Até então, as faculdades particulares tomavam conta do espaço deixado pela UnB. A partir daí, durante a década de 1990, foram criados mais 13 cursos noturnos. No 2º semestre de 2006, quase 20% dos alunos estiveram matriculados nesse turno, 4.269 estudantes nos 15 cursos existentes.

:: Inovações........................................................................... :: topo

Para avaliar os alunos de Educação Superior, de 1996 a 2003, o Ministério da Educação (MEC) lançou o Exame Nacional de Cursos, Provão. Havia uma prova por ano para os formandos de alguns cursos. Os resultados eram dados por conceitos – as 20% melhores universidades ganhavam A, as 20% piores, E, e as demais eram distribuídas entre B, C e D. Durante o tempo de existência do exame, a UnB obteve 75% de conceitos A e 13% B.

Em 1996, a UnB criou o Programa de Avaliação Seriada (PAS) como alternativa ao vestibular. Consiste em provas aplicadas ao término de cada uma das séries do ensino médio. Os melhores colocados ao final das três etapas são automaticamente aprovados para a universidade. A intenção do PAS é estimular as escolas a prepararem melhor o aluno, com conteúdos mais densos desde o primeiro ano do ensino médio.

Nos primeiros dez anos do programa, em 2006, mais de 50 mil alunos participaram do PAS. Desses, 8.547 tornaram-se calouros da UnB. Por exigir dedicação durante os três anos do ensino médio e não apenas na preparação para o vestibular, o desempenho entre esses universitários é melhor quando comparado aos demais. Os primeiros alunos entraram para a universidade no primeiro semestre de 1999. O PAS é aberto a todos os estudantes do país.

Outra mudança significativa aconteceu em 2004. O segundo vestibular do ano, realizado nos dias 26 e 27 de junho, foi o primeiro a adotar o sistema de cotas para negros, aprovado em junho de 2003 pelo Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (Cepe) da universidade, que também aprovou no mesmo dia a inclusão dos índios (semestralmente, cerca de 10 vagas são destinadas a membros de comunidades indígenas). O programa prevê a reserva de 20% das vagas para estudantes que se declararem negros no ato da inscrição e optarem pelo sistema de cotas. Ao todo, 4.173 candidatos tiveram suas inscrições homologadas pelo novo regime. E 378 foram aprovados.

A medida foi polêmica, mas a UnB – a primeira universidade federal a adotar o sistema – buscou assumir seu papel na luta por um projeto de combate ao racismo e à exclusão social. Nesse mesmo direcionamento, foi assinado o convênio com a Fundação Nacional do Índio (Funai). Em 2006, apenas 0,36% dos índios, que segundo o levantamento feito em 2000 era de 368 mil, ingressaram no ensino superior. A idéia é que os indígenas voltem às aldeias e apliquem o conhecimento para melhorar a qualidade de vida de seus povos, sem que isso signifique aculturação. A prova para a admissão tem as mesmas características da prova de transferência e o candidato deve atingir uma pontuação mínima. O convênio foi assinado no dia 12 de março de 2004. A UnB é uma das universidades que mais interagem com a comunidade. Em 2005, segundo o Serviço de Convênios e Contratos (SCO), eram 296 convênios entre a UnB e empresas públicas e privadas no Brasil e no exterior.

:: Crescimento........................................................................ :: topo

O compromisso social da universidade também aumentou em outras frentes. A começar pela expansão do próprio número de alunos matriculados. Segundo a SPL, em 2002, a UnB tinha 21.734 alunos regulares registrados nos cursos de graduação, 32% a mais que 1998 e quase 53 vezes o número de alunos do primeiro vestibular, em 1961.

Na pós-graduação, o aumento no número de alunos também foi significativo. Entre 1998 e 2002, houve um crescimento de estudantes no mestrado de 37% (passando de 668 para 915) e no doutorado de 67% (de 605 alunos para 1.013). Esse fenômeno também reflete no nível dos docentes. Em 2002, dados da SPL mostraram que, dos 1.297 dos professores da UnB, 67% eram doutores e 26% mestres. Com o crescimento da universidade, houve a necessidade do aumento da oferta de cursos. Em 1961, eram cinco cursos, que faziam parte dos cursos-tronco, em 2006, esse número foi para 63, sendo 15 noturnos e dois a distância.

A universidade é um organismo vivo. Não só pelo tamanho, mas por toda a infra-estrutura. No campus, há agências bancárias, agência dos Correios, posto de gasolina, lojas de conveniência, barbearia e sapataria, papelarias, fotocopiadoras, livraria, restaurantes, lanchonetes etc.

Dados da SPL mostram que, em 2004, a UnB contava com 396 laboratórios, 51 departamentos, 22 institutos e faculdades, 14 centros, cinco decanatos, cinco órgãos complementares (Biblioteca Central, Centro de Informática, Centro de Produção Cultural e Educativa, Editora Universidade de Brasília, Fazenda Água Limpa e Hospital Universitário), três secretarias e um hospital veterinário, com duas unidades: uma de pequeno e outra de grande porte.

O campus Universitário Darcy Ribeiro - nome dado durante homenagem feita em fevereiro de 1995, dois anos antes da morte do idealizador da UnB -, tem 3,95 milhões de metros quadrados (395 ha), equivalente a 33 estádios do Maracanã, o maior estádio do mundo. Desses, 463 mil metros quadrados são de área construída. Para os próximos anos, pelo menos quatro prédios serão erguidos, os dos Institutos de Biologia e de Química, o da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Ciência da Informação e Documentação e o do Centro de Seleção, Promoção e Eventos (Cespe).

:: Fontes................................................................................. :: topo
  • Secretaria de Planejamento da Universidade de Brasília (SPL).
  • Centro de Documentação da Universidade de Brasília (Cedoc).
  • Professora aposentada do departamento de História da UnB e atual diretora da Casa de Cultura da América Latina (CAL), Geralda Dias Aparecida.
  • Professor aposentado da Faculdade de Comunicação da UnB, fotógrafo, arquiteto e um dos fundadores da universidade, Luis Humberto Martins.
  • Presidente da Cruz Vermelha e analista de sistemas aposentado pelo Serviço de Processamento de Dados do Senado (Prodasen) e irmão de Honestino Guimarães, Norton Monteiro Guimarães.
  • Ex-alunos de arquitetura e urbanismo da UnB Antônio Moraes de Castro, Luiz Henrique Duarte, João Homar, Máuria Cabrera De Lóe e Luiz Carlos Cruvinel.
  • Ex-aluna de direito da UnB Léa Emília Braune Portugal.
  • Marcelino, Gileno Fernandes (org.). Gestão estratégica de universidade. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2004. 240p.
  • Ribeiro, Darcy. UnB: Invenção e Descaminho. Brasília: Avenir Editora, 1978. 139p.
  • Ramos, Murilo Cesar (coord.). Sonho e realidade - O movimento docente na Universidade de Brasília. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1994 ADUnB. . 255p.
  • Salmeron, Roberto A.. Universidade interrompida: Brasília 1964 – 1965. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1999. 484p.
  • Trigueiro, Michelangelo Giotto Santoro. Universidades públicas: desafios e possibilidades no Brasil contemporâneo. Brasília: Editora de Brasília, 1999. 184p.
  • Barra 68 - Sem perder a ternura. Gênero: Brasil, Documentário. Ano: 2000. Duração: 80 min. Colorido.
 

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