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Jarbas Passarinho....................................................................... |
O general da reserva Jarbas Passarinho ficou famoso por ter
mandado “às favas os escrúpulos de consciência” durante a reunião do
Conselho de Segurança Nacional que resultou no Ato Institucional 5
(AI-5), em dezembro de 1968. Mesmo que causasse certa repulsa,
Passarinho conta que concordou em apoiar o então presidente da
República, Emílio Garrastazu Médici. “Mandei às favas meus
escrúpulos, exatamente porque eu os tinha”, justifica.
Nesta entrevista, concedida ao Portal UnB, em junho de 2004,
Passarinho não usou a expressão regime militar em nenhum momento.
“Recuso esse nome. Prefiro regime autoritário”, diz. “Regime militar
eu vi no Peru”, justifica. Lembra ainda da época em que esteve no
Ministério da Educação, sua ligação com a UnB e as dificuldades
criadas por causa do decreto lei 477. O texto, que era interpretado
por ele como o AI-5 dos estudantes, previa a punição a atos
considerados subversivos praticados por professores, alunos,
funcionários ou empregados de estabelecimentos de ensino público ou
particular. “Passaram a dizer que eu era dono do 477”, lembra.
Jarbas Passarinho foi governador do Acre, senador por três
mandatos e ministro do Trabalho (1967–1969), Educação e Saúde
(1969–1974), período em que a Universidade de Brasília (UnB)
começava a se reerguer, Previdência (1979–1985) e Justiça
(1990–1992). Atualmente, é assessor especial da Confederação
Nacional da Indústria (CNI).
A seguir, os principais trechos.
Portal UnB - Como o senhor foi chamado para o Ministério da Educação
e qual a sua relação com a Lei 477?
Jarbas Passarinho – Ele (presidente Médici) me telefonou
dizendo que iria assumir a Presidência, mas queria que eu permanecesse
no Ministério. Não mais no Ministério do Trabalho, e sim para causar
um impacto na juventude brasileira. Aí percebi o que ele queria dizer
com isso. Quando cheguei, o presidente me disse: ‘De fato eu quero que
você passe para o Ministério da Educação e Cultura’. A lei 477 foi feita
quando eu ainda era ministro do Trabalho, pelo então ministro da Educação,
Tarso Dutra. Mas alguns ainda acham que eu institui a lei.
Portal UnB – Por quê?
Passarinho – Quando um reitor ou um diretor de uma faculdade
isolada instaurava o 477 e punia, estava enterrado o assunto. Ao ministro
só caberia rever se ele tivesse absolvido. Entendeu isso? O ministro
só tinha o poder de entrar no 477 se o aluno tivesse sido absolvido.
Eu disse: ‘Se posso condenar o que tinha sido absolvido, quero absolver
o que foi condenado. Então quero ser uma segunda instância’. Aí arranjei
uma complicação: passei a ser o dono do 477. Passei para o reitor isso:
‘Não aceito de forma alguma, e sou eu que vou tomar a decisão final,
qualquer tipo de punição, a não ser em comprovação de participação de
alunos na luta armada para a conquista do poder’.
Portal UnB – O senhor chegou a anistiar alunos que já haviam
sido punidos?
Passarinho – Em Juiz de Fora puniram um calouro com o 477. Quando
ele entrou recebeu um trote. No trote ele recebeu um papel que ele tinha
que assinar dizendo que era bicha desavergonhada. Ele disse que não
assinaria. Houve uma briga. Pegaram ele e aplicaram o 477. Por quê?
Porque o reitor, ao invés de assumir a responsabilidade de punir, jogava
pro ministro. Mas não tinha nada com o 477. Santa Maria, já na implementação
da guerrilha de Porto Alegre. Eles foram presos em Porto Alegre, na
lei de segurança nacional. O reitor queria instaurar o 477. Disse a
ele: ‘O senhor pode fazer, mas vou absolvê-los, não vou punir duas vezes.
Eles já estão enquadrados. Não usaram a universidade, não usaram o campus
universitário para isso. Então como é que eu vou aplicar’. Essa menina,
Mirian Leitão, foi instaurado um inquérito e ela respondeu e foi absolvida,
no Espírito Santo. O caso de Goiás, eu ia ser paraninfo da turma e o
Médici Patrono. Nas vésperas, outros estudantes, formandos, 477 aplicado
pelo reitor. Reuni os oito e disse a eles: ‘Vocês estão realmente comprometidos.
Preparados para a luta armada para aquisição do poder. Mas eu não quero
vingança, quero justiça. Se eu confirmar a punição do reitor, vocês
vão ficar três anos sem poder se formar, sem poder fazer concurso público
etc. Podem vestir as vestes, que vocês vão se formar hoje. Mas ai de
vocês se voltarem à universidade para serem estudantes profissionais.
Aplico na hora que entrar. Vocês não irão fazer proselitismo comunista
dentro da escola. Isso não aceito’. Bom, o que fez o reitor, foi falar
com o pessoal da segurança e na hora da formatura, não tinha um militar,
uma autoridade militar. A turma tinha me escolhido para paraninfo!
Portal UnB – O senhor sofreu alguma represália por acharem
que era "dono do 477"?
Passarinho – Já senador, muito tempo depois, o centro de saúde
do Senado mandou que eu fizesse um raio-X de ombro. Fui lá. Quando já
estava deitado, o técnico me disse: ‘O senhor sabe que me aplicou o
477?’. Não podia nem me defender. Aquele aparelho em cima de mim, ele
atrás. Muita gente mudou de opinião ao meu respeito. Quantos eu reencontrei.
Esse foi um exemplo, ele disse assim: ‘Quem estava errado era eu. O
senhor me deu chance e não soube aproveitar’.
Portal UnB – Teve uma história de oito estudantes que não
puderam se matricular em 1972 e, entre eles, estava o irmão do Honestino
Guimarães, Norton Monteiro Guimarães...
Passarinho – Esse rapaz até me vendeu um computador outro dia.
Ele trabalha no Senado. Ao meu tempo não existiu isso. Ele conversou
muito. O irmão foi quem bateu no reitor.
Portal UnB – Então não existiu isso?
Passarinho - Não. Ao meu tempo, não.
Portal UnB – O senhor impôs alguma condição para assumir o
Ministério da Educação?
Passarinho – Disse ao presidente que não iria impor condições,
mas fiz pedidos. Se caso não conseguisse manter a ordem e a disciplina
em toda a área nacional, iria voltar e me demitir. O que eu não queria
é que houvesse nenhuma interferência policial em qualquer campus universitário
do Brasil ou em qualquer faculdade isolada.
Portal UnB – E o presidente Médici concedeu isso ao senhor?
Passarinho – Sim, ele me garantiu. Na hora mesmo, que conversávamos,
ele ligou para o general Valter Pires, então diretor-geral da Polícia
Federal, que depois iria ser ministro do Exército, e disse: ‘Olha, estou
assumindo com o Passarinho, quero que você converse com ele’.
Portal UnB – O senhor fez outro pedido ao presidente?
Passarinho – Pedi a revogação da Lei 477. Disse que era ministro
do Trabalho e que não tinha lá um decreto lei número 477. Greve de estudante
pra mim, prejudica o estudante. Greve de onde eu estava, o Ministério
do Trabalho, prejudica a economia. E não precisei disso (Lei 477). Resolvi
as greves pacificamente.
Portal UnB – O presidente revogou?
Passarinho – O presidente mandou o Conselho de Segurança Nacional,
todos os ministros e o chefe do Estado Maior das Forças Armadas estudarem
esse pedido. Depois que entregaram o relatório, Médici me chamou e disse
que o Conselho havia considerado prematuro.
Portal UnB – O que o senhor achava dessa lei?
Passarinho – Eu sempre a chamei de “corolário do teorema”. O
teorema era o AI-5 e o corolário para a parte estudantil era a lei 477.
No exército, aprendemos que a gradação da pena deve ser em relação à
falta. Tínhamos uma classificação: leve, média e grave. Não se pode
aplicar a um militar que praticou uma transgressão grave, uma advertência
verbal, mas também não se pode pedir a esse comandante que aplique em
um militar que praticou uma transgressão leve, uma pena de trinta dias
de cadeia.
Portal UnB – E o que o senhor fez?
Passarinho – Disse que iria aceitar pedidos de reconsideração,
que é o que nós fazemos no Exército. O militar que se sente punido injustamente,
pode pedir reconsideração, ele tem o direito de pedir. O problema é
se o pedido não for aceito, aí pode piorar, porque dobra a punição dele.
Presidente concordou. Eu passei 4 anos, 3 meses e 15 dias sem nenhuma
invasão de faculdades isoladas ou de universidades no Brasil inteiro.
Portal UnB – O senhor lê Marx. Como falava sobre isso na época
em que os militares tinham tanto medo do comunismo?
Passarinho – Em 1970, na Aeronáutica, disse que não entendia
que não se estudasse Marx, filosofia e economia. Um brigadeiro chegou
para mim e disse: ‘Eu não posso entender. Nós nos atemos aqui num movimento
anticomunista. Nós poderíamos ir para o paredão se fosse o Fidel Castro
o vencedor e o senhor manda estudar Marx?’. Expliquei a ele que da mesma
maneira que se estuda a parte mecânica do avião, sem ser mecânico, para
saber se o avião está preparado para voar. Não podia entender que apagassem
a figura de Marx da existência, que foi um talento, que chamam até de
gênio. Preciso estudá-lo, como estudei. Até (o governo de) Getúlio (Vargas)
não podia estudar. Se tivesse um livro de Marx ou contra Marx, se alguém
me pegasse, ia pra cadeia. Então não podia estudar. De major pra diante,
estudei. E poderia ter me convencido que o marxismo era o meu ideal,
só que eu era católico praticante naquela ocasião, hoje só para recenseamento.
Precisei estudar Marx, pra saber se concordava ou discordava dele. E
recomendo. Discuto as seis teses básicas de Marx, onde ele foi um péssimo
profeta. Um genial economista e filósofo, principalmente, mas um péssimo
profeta. Tudo que ele profetizou se deu o contrário, mas ele (o brigadeiro)
não sabia disso. Agora, quero que estude como um raio-X e não como catecismo.
Portal UnB – O senhor não gosta que usem a expressão “regime
militar”. Por quê?
Passarinho – Recuso essa expressão. Regime militar vi no Peru,
fui lá à paisana. Todos os nossos presidentes, os generais, nenhum usou
farda. Todos à paisana. E aqui todos viam fardados, o Perón, todos fardados.
Eles diziam assim: ‘El gobierno del las fuerzas armadas y del pueblo
del Peru’ (O Governo das Forças Armadas e povo do Peru). Todos (militares
peruanos) fardados. Generais, coronéis, todos fardados. Então o regime
lá era militar, fecharam tudo. Não tinha Senado, Câmara, Câmara de Vereadores,
não tinha nada. Como foi com Getúlio (Vargas), quando eu fui líder estudantil.
Ele (Getúlio) instalou o regime em 1937. Fui desligado da escola porque
ousei contestar uma parte da constituição. Aprendi uma lição sobre esse
fascismo. Fascismo não é apenas impedir de criticar, é obrigar a elogiar.
O Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) preparava todo dia um
certo release que todos os jornais tinham de publicar, elogiando o ditador.
O jornal O Estado de S. Paulo reagiu, Getúlio botou um interventor no
jornal de Mesquita.
Muito diferente do que participei depois, que foi o regime
autoritário, que sempre chamei assim. Para distinguir do regime
totalitário, nazismo, comunismo, Fidel Castro de hoje etc. Regime
autoritário não, você tem até, como nós tínhamos, possibilidade de
eleições diretas, limpas e no totalitário você é obrigado a pensar
como pensa o governo. É um partido único, como a China. Mas já não
entendo mais nada, porque quando dizem que a China está fazendo um
socialismo de mercado, é a mesma coisa de chamar um clube misturado
de flamengo e fluminense.
Portal UnB – E a Universidade de Brasília? O senhor tem lembranças
da criação?
Passarinho – Uma vez visitei Brasília e a universidade. Já vinha
toda a discussão sobre Darcy Ribeiro. O pessoal do próprio Juscelino
(Kubitschek) não gostava dele. O campus tem o nome de Darcy. O ministro
da Educação da época era o Clóvis Salgado, a família dele até hoje se
considera usurpada. A luta da família do ministro é provar que ele (Darcy)
usurpava a idéia de ter sido o fundador, ele foi secretário da construção,
foi parte do grupo que secretariou a criação, sempre foi um homem de
idéias. Pensamento ele tinha, já execução, era outra coisa completamente
diferente. Nunca provou ter curso superior, nunca. Houve um debate em
que o comandante Azevedo (que era o vice-reitor) disse ao Darcy: ‘É
muito fácil. Mostre o diploma’.
Portal UnB – O senhor está dizendo que ele não fez Antropologia?
Passarinho – Acho que ele cursou uma escola que até, quando fui
ministro, apoiei. Escola de Sociologia e Política de São Paulo, onde
ele teria feito Antropologia, mas não concluiu. Quando se entra no Senado,
cada senador tem que apresentar um currículo. Darcy sempre colocou que
foi formado em muitas matérias, mas nunca provou.
Portal UnB – Durante o tempo em que o senhor esteve no Ministério,
o que fez pela UnB?
Passarinho – A departamentalização, em 1970, 1971. Quando Castello
Branco fez a reforma Universitária somente nas universidades federais.
Essa idéia veio de fora. De um simpósio. A diferença era que você tinha
Enfermagem, Odontologia, Medicina, Fisioterapia. O que acontecia? Havia
um professor de Anatomia para cada curso, aí juntou-se no departamento
todos professores de anatomia. Tinha anatomia 1, 2 , 3, dependia do
curso. Medicina tinha completa, Odontologia, só a parte que interessava
e daí por diante. Economizavam-se meios, economizava tudo. Departamento
tinha essa vantagem e nós fizemos. Começamos a dar força à Universidade
de Brasília. O doutor Amadeu Cury dizia que quando ele chegou não tinha
nada, até a reitoria era algo muito precário. Tínhamos um único auditório,
era pequeno. Fui lá várias vezes. Quando eu cheguei no Ministério, o
curso de Medicina da UnB não era reconhecido. Era um homem brilhante
que dirigia, Carlos Chagas, mas o que ele fez: enquanto todo curso de
Medicina, que era normal no país, estudava anatomia, depois fisiologia,
depois não sei o que, na UnB, era por partes. Você estudava a cabeça,
depois tronco, depois braço. Então não era reconhecido pelo Conselho
Federal de Educação. Um dos meus grandes problemas foi conseguir fazer
com que o curso fosse reconhecido, porque os rapazes já estavam saindo
formados e não podiam fazer concursos, por não ser reconhecido, nem
exercer a profissão, eles ficavam totalmente perdidos. Nós fomos dando
meios para a universidade crescer, fomos criando novos cursos. E nós
chegamos a passar de 800 estudantes no início da universidade.
Fizemos também a mudança do vestibular. Antes, no vestibular da UnB,
havia todas as matérias. Os valores mudavam. Se o seu curso era
medicina, biologia tem mais peso que matemática. Fizemos um
vestibular unificado. Todas as provas eram dadas no mesmo horário.
Havia uma taxa, o filhinho do papai fazia todos os vestibulares do
país. Se meu povo tem igualdade de oportunidade, aí sim, estamos em
uma democracia. E não isso que acontecia. Por outro lado, a prova
era feita pelo pessoal da universidade, dificílima. Exigi que a
prova fosse unificada e que fosse feita com o auxílio de professores
do segundo grau, entrando a matéria que eles ensinavam no segundo
grau. E como acabei com os excedentes? Transformei a aprovação em
classificação. O que é até hoje. Foi uma mudança radical no
vestibular.
Portal UnB – Houve algum fato da história da universidade
que marcou o senhor?
Passarinho – Um dos fatos marcantes foi a inauguração da Biblioteca
Central, que não existia. Eu procurava ler tudo que correspondesse,
essa vaidade eu tinha. A missão que me davam, eu procurava estudar.
Quando eu presidi o Congresso, eu estudava. Não precisava daqueles caras
que eu via sussurrando para o presidente a decisão. Estava estudando
naquela ocasião o videocassete, estava aparecendo ainda. Eu li em francês,
não foi nem em inglês. Era caríssimo. Os civis comentavam sobre o que
eu estaria fazendo, já que era militar, mas o que eles não sabiam é
que nós (militares) tínhamos uma metodologia de ensino 20 anos à
frente da deles (civis). Tem uma frase que diz que ‘todo civil acha
que o militar é burro e todo militar acha que civil não é patriota’.
Mas nós pagamos um preço por isso. O Brasil pagou o preço. Enfim, na
biblioteca havia um livro para cada quatro alunos. Eu cheguei e falei
que estava lendo sobre o videotape. E falei que gostaria que estivesse
inaugurando aqui, olha só, em 1970, já tínhamos a mapoteca, estávamos
inaugurando a biblioteca e eu queria videotapeteca. Assim como tínhamos
um livro para cada quatro, teríamos um vídeo para cada quatro. Digamos
que teríamos um curso de Direito, com belíssimos professores. O professor
daqui dava sua aula, depois o aluno ia até lá, como ia à biblioteca
pegar um livro para aprender mais, e ouvia o outro professor. E depois
o professor, de cá, daria uma revisão. Só fui ver isso no colégio militar.
Portal UnB – Como era a metodologia de ensino militar?
Passarinho – Nós estávamos 20 anos à frente. A nossa metodologia
era a seguinte: um tenente ia dar aula e tinha cinco fases. A primeira
é a preparação intelectual, tinha de se preparar para ser professor.
A segunda é a preparação material, combinar a memória auditiva com a
memória visual. Depois tinha slides e a explanação. E, finalmente, a
aplicação. Essa era a aula de um cadete. Eu não conseguia mais dar aulas
sem um cavalete e figuras, para poder misturar as coisas. Decepcionei-me
muito com as universidades brasileiras. Chamei os reitores, que
tinham acabado de fazer pós-graduação, para assistir uma aula nossa.
Naquele tempo não se dava mais de 0 a 10. Você fazia uma prova e se
baseava que todo fato social normal é como uma curva de dados. Você
tem 25% de mais fracos, 25% de excelentes e no meio são os bons. Se
a média do professor fosse 4, quem tirasse mais de 4 era muito bem.
Dependia da curva de graus do professor, dependia da dificuldade da
prova. Se o professor for bonzinho, a média dele é 7,5. E havia escolha
múltipla, só que era um certo para um errado. Na regra de probabilidade,
você tem um dado. A probabilidade de você tirar qualquer número é um
para seis. Mas para você tirar de novo o mesmo número a probabilidade
vai de um para 36 e assim por diante. Dessa maneira, só se respondia
o que tivesse certeza.
Entrevista realizada pela jornalista Kelly Couto
Da Assessoria de Comunicação
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Norton Monteiro Guimarães................................................ :: topo |
Por causa do regime militar, Norton Monteiro Guimarães teve sua
vida virada de cabeça para baixo. Foi preso e torturado mesmo sem,
segundo ele, nunca ter tido ligação com o movimento estudantil ou
político. Perdeu três empregos públicos nos anos 1970. Seu maior
crime, revela, era ser irmão de um dos personagens políticos mais
atuantes de Brasília: Honestino Guimarães.
Norton viu de perto a morte do pai, a prisão do irmão, o
sofrimento da mãe. Na década de 1960, o líder estudantil Honestino,
ex-aluno da UnB e ex-presidente da Federação dos Estudantes da
Universidade de Brasília (FEUB), foi perseguido, torturado, preso e
acusado pelos governos Castello Branco, Costa e Silva e Médici de
ser comunista.
A última vez que Norton esteve com Honestino foi em 1973. Em um
rápido encontro, tentou entregar ao irmão um passaporte falso. O
ex-líder estudantil recusou. "Ele me disse que se tivesse de morrer,
morreria aqui no Brasil", lembra Norton. Poucos meses depois
Honestino foi preso pela Marinha.
Dos anos de chumbo, o irmão mais novo guarda na memória momentos
bons. Fala, com brilho nos olhos, da inteligência do irmão e da
forma como se sentia protegido. Faz questão de dizer que nunca
deixou de amá-lo, mesmo depois de ser preso, torturado e impedido de
trabalhar. "Os militares do Brasil foram usados pelos Estados Unidos
para matar seu próprio povo", diz.
A seguir, os principais trechos da entrevista exclusiva
concedida ao Portal UnB na residência de
Norton Monteiro Guimarães, no bairro de Águas Claras, em Brasília,
em junho de 2004.
Portal UnB– Quem foi Honestino Guimarães?
Norton Monteiro – Ele era o cara mais inteligente que conheci.
Nunca encontrei outra pessoa como ele. Em 1965, foi o 1o colocado do
vestibular. A prova, naquela época, valia 260 pontos, ele tirou 257.
O segundo colocado ficou 43 pontos atrás dele. Ele fazia Geologia. A
Petrobras mandava todos os meses uma cartinha dizendo que a vaga dele
estava guardada para quando ele se formasse.
Portal UnB – O que ele fazia que o tornava diferente?
Monteiro – Ele sempre foi muito inteligente. Lia uma média de
180 livros por ano, fazendo uma espécie de resenha de cada um. Lia dois
a três jornais por dia. Ele fazia pastas de notícias. Por exemplo, a
Guerra do Iraque: se saísse uma notícia daquele assunto no jornal ou
revista, ele cortava e guardava na pasta daquele assunto. E ele dormia
muito pouco. A meta dele era dormir duas horas por dia, igual a Napoleão
(Bonaparte). Fora que ele sempre lutou a favor das minorias, quase sempre
contra o governo. Ele se indignava com as coisas que aconteciam durante
o regime militar.
Portal UnB – Quando Honestino começou a participar
da política?
Monteiro – Ele sempre foi muito político. Quando criança, nós
brincávamos juntos e ele sempre era o presidente da República (risos).
Ele me nomeava ministro da Aeronáutica e meu outro irmão ministro da
Marinha. Ele sempre foi muito líder. Gostava de comandar. No golpe de
1964, ele ficou muito bravo porque estavam acabando com a democracia.
Aí, ele se opôs ao regime. A primeira prisão foi por causa de uma pichação:
‘abaixo a ditadura’.
Portal UnB – O que ele representou para a UnB e para
Brasília?
Monteiro – É difícil falar sobre o que ele representava. Naquela
época, existiam dois mil alunos na UnB. Ele reuniu de 15 a 20 mil pessoas
numa passeata na W3 (uma das avenidas principais de Brasília). Não foram
só estudantes, foi a população de forma geral. Ele conseguiu o que nenhum
político da época conseguia. Na UnB, ele era presidente da Federação
dos Estudantes da Universidade de Brasília (FEUB). Ele sempre lutou
pela liberdade do estudante universitário. Ele queria mudar essa visão
errônea de que na universidade só existiam subversivos.
Portal UnB – O que aconteceu com seu irmão na invasão
de agosto de 1968?
Monteiro – A invasão de 1968 foi para pegar o Honestino. Não
existiu outro motivo. Ele tinha um esquema de segurança.
Portal UnB – Onde Honestino estava quando o Ato Institucional
nº 5 foi decretado (AI-5), em 13 de dezembro de 1968?
Monteiro – Na véspera da publicação do AI-5, eu estava na rua
com meu irmão. Ele falou comigo assim: ‘Eu vou pra Goiânia, não vou
ficar aqui pra esperar esse Ato não. Você avisa meus pais’. Aí eu fui
pra casa tarde da noite e meus pais já estavam dormindo. De manhã, chegaram
uns homens apontando uma arma na minha cara. Perguntaram pelo meu irmão
e eu disse que não sabia. Fui levado primeiro para o Departamento de
Ordem Política e Social (Dops), depois para o Pelotão de Investigação
Criminal da Polícia do Exército (PIC). Meu pai sabia que eu tinha sido
preso, mas só eu sabia onde estava meu irmão. E o pessoal de Goiânia
não falou nada, porque pensava que eu tinha avisado. Meu pai passou
três dias sem dormir. Quando eu fui solto, ele estava um ‘caco’. Ele
foi trabalhar (em Taguatinga), e a gente morava na Asa Norte. Voltou
dirigindo, dormiu ao volante, bateu o carro e morreu. Bateu num caminhão
parado. Eu estava me preparando para o vestibular e desisti.
Portal UnB – Mas você teve contato com Honestino depois
disso?
Monteiro – Quando o Honestino foi para Goiânia, em 1968, não
poderia voltar mais para Brasília, senão seria preso. Aí ele passou
a viver na clandestinidade, no Rio de Janeiro. Ele foi morrer em outubro
de 1974, eu acho. Ele passou mais de cinco anos na clandestinidade.
Nesse tempo fui algumas vezes me encontrar com ele. E, mesmo na clandestinidade,
ele mantinha o esquema de segurança. Eu ia para o Rio sem saber onde
ele estava. Primeiro encontrava uma pessoa, que me dava um endereço
e depois outro e mais outro. Nunca sabia quando o endereço era o certo.
Portal UnB – Como você acha que ele morreu?
Monteiro – Ele foi preso pela Marinha e havia alguns procedimentos.
Os presos políticos eram levados de avião para o alto mar, furavam as
barrigas, para não boiar, e depois jogavam no mar. Os presos da Marinha
nunca apareceram. São considerados desaparecidos políticos. Aliás, sempre
fui contra essa terminologia, porque é um nome que esconde quatro crimes:
seqüestro, tortura, assassinato e ocultação de cadáver.
Portal UnB – Ele foi enquadrado pelo governo como terrorista?
Monteiro – Não. Não conseguiram. Ele dizia que ‘nem essas mentes
férteis e venenosas (militares) conseguiram me enquadrar como terrorista’,
porque ele sempre foi contra tudo isso.
Portal UnB – Depois de tudo o que aconteceu sua família
foi indenizada?
Monteiro – Teve uma indenização. Mas ele foi casado com a Isaura,
que era filha única de professores da UnB. E a vida na clandestinidade
era muito difícil, era uma vida de privações. Os pais dela mudaram-se
para a Espanha e lá o pai faleceu. A família dela nunca gostou desse
casamento. A mãe começou a presentear a Isaura com coisas que fizeram
com que ela se arrependesse do casamento e pedisse a separação. Mas,
como eles viviam na clandestinidade, não foi possível fazer isso legalmente.
O que aconteceu foi que, quando a indenização foi paga, quem recebeu
foi a Isaura, sendo que o Honestino havia se juntado com uma outra menina
antes de morrer e a Isaura se casou novamente. Olha a ironia: ela se
separou do meu irmão por causa de dinheiro e recebeu a indenização por
ser viúva dele. E ela ainda achou pouco a indenização e entrou na Justiça
pedindo mais. Aí saiu estampado no jornal: ‘Família de Honestino exige
mais indenização’. Quando meu irmão se separou da Isaura, eu fui ao
Rio encontrá-lo. Ele estava em uma depressão muito forte. A gente podia
ter ido a juízo dizer que ela não tem direito à indenização, mas não
queremos dinheiro, queremos saber quem matou o Honestino.
Portal UnB – Você chegou a sofrer represálias por ser
irmão de Honestino?
Monteiro – Fiz vestibular na UnB, em 1969, e passei. Quando eu
fui me matricular, estava em uma lista de oito estudantes que não podiam
se matricular. Eram ordens do Jarbas Passarinho, então ministro da Educação.
Nós fomos falar com ele e a secretária dele disse que ele não poderia
nos atender. No outro dia, nós fomos esperá-lo na porta do Ministério
com um repórter. E nós subimos e ele nos atendeu. A discussão foi levada
para política. Mas a minha situação era diferente, me sentia prejudicado.
Teve uma hora que o Jarbas Passarinho, no auge da discussão, disse que
‘o problema de vocês estudantes é não perceberem que o Brasil sempre
foi e sempre será uma colônia’. Isso doeu no meu ouvido como uma bigorna.
Fiquei com raiva e disse apontando o dedo na cara dele: ‘Olha aqui,
eu ganhava muito bem, melhor do que a minha mãe que é diretora de escola.
Passei no vestibular e larguei o meu serviço para estudar. Agora vem
você me dizer que eu não vou estudar? O que você está me fazendo é prejuízo.
E prejuízo vou pagar com prejuízo. Vou quebrar todos os vidros da universidade
e não adianta colocar de dia que à noite vou lá e quebro. E só vou parar
de quebrar quando essa raiva passar’. Os outros estudantes viravam pra
mim e falavam: ‘Como você fala isso para o ministro da Educação?’. Eu
falei: ‘Que ministro da Educação que nada, esse cara está é ensinando
o povo a ficar revoltado’. Ele olhou pra mim e perguntou, com raiva,
qual era meu nome. Eu disse e ele anotou rápido no papel e virou e disse:
‘Amanhã você vai à universidade falar com o Azevedo’ (então reitor da
UnB). No outro dia, fui falar com o Azevedo. Ele perguntou o que tinha
acontecido no dia anterior e eu o expliquei por alto. Ele me disse ‘Bom,
você é maluco. Estou com um bilhete aqui do ministro pra te deixar entrar’.
Portal UnB – Você se revoltou com os militares?
Monteiro – Os militares do Brasil foram usados pelos Estados
Unidos para matar seu próprio povo. E os militares não aceitam isso.
A corrupção aumentou demais na ditadura militar. Mas isso é outra história.
Não sou revoltado, só gostaria de saber o que foi feito com meu irmão.
Entrevista realizada pela jornalista Kelly Couto
Da Assessoria de Comunicação
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Maria Rosa Leite Monteiro................................................... :: topo |
O jeito suave de gesticular, o olhar terno e a voz aveludada
provam que o tempo foi generoso com Maria Rosa Leite Monteiro, mãe
de Honestino Guimarães. Companheira de primeira hora do filho
revolucionário, Dona Rosa, como prefere ser chamada, viu de perto
quase todo tipo de injustiça. Uma mistura de mãe e militante. Ela
compartilhou também vitórias importantes. A memória emocional
reservou mais espaço para as lembranças boas, nenhuma amargura. “Eu
nunca chorei pelos cantos. Eu choro de alegria. Poucas vezes, choro
de tristeza. E eu não tenho tristeza”, diz a senhora de 76 anos.
Nos momentos mais duros da ditadura, aprendeu a conciliar
trabalho com maternidade. Protegeu Honestino até o limite do
impossível. Os encontros às escondidas e as fugas planejadas
preencheram sua rotina quase que naturalmente. Mesmo como diretora
de colégio, Rosa fazia questão de ir a comícios organizados pelo
filho. "Já que não consegui impedi-lo, resolvi acompanhá-lo",
recorda.
Durante a invasão da polícia na Universidade de Brasília (UnB),
em 29 de agosto de 1968, Rosa não conseguiu chegar a tempo. Até hoje
conta, frustrada, um dos capítulos mais tristes de sua história.
"Havia muitos soldados armados. Não consegui entrar e não sabia se
meu filho estava vivo ou morto", completa.
As lembranças da repressão, a preocupação em não deixar
Honestino só e as conseqüências para a família, Rosa relembra nesta
entrevista ao Portal UnB. Leia os
principais trechos de mais de três horas de conversa no início de
outubro.
Portal UnB – Por que vocês vieram para Brasília?
Maria Rosa Leite Monteiro – Para meus filhos Honestino, Luis
Carlos e Norton estudarem. Morávamos numa cidade do interior (Itaberaí,
em Goiás) e Brasília era desejada. A UnB era tudo. Viemos em 1960 e
Honestino estava na 4a série ginasial. Ele foi para o Colégio Elefante
Branco e depois passou em primeiro lugar para o curso de Geologia no
vestibular da UnB.
Portal UnB – Alguma vez a senhora pediu para que seu
filho desistisse da luta?
Rosa – E adiantava? Ele não deixava de ouvir, mas tinha os argumentos
dele. Falava que tinha de ser feito, era uma missão. Ele me dizia: “Mamãe,
e se todo mundo fugir? Quem é que fica? Quem é que vai defender?”. Eu
disse a ele que se ficasse iria morrer. Ele me respondeu: “Eu prefiro
viver pouco tempo aqui a viver no exterior. Lá eu estarei morto. Se
eu morrer na minha pátria, morro feliz”. Ele era realmente brasileiro.
Um dos motivos de eu estar aqui viva e forte até hoje é não deixar a
luta dele morrer junto.
Portal UnB – Depois dessa prisão ele voltou à universidade?
Rosa – Não. Em setembro de 1968, ele foi expulso. Depois que
o Honestino foi para Goiânia, dia 12 de dezembro de 1968, ele não pisou
mais lá em casa. Nos encontramos outras vezes. Ele passou por diversas
cidades.
Portal UnB – Como personagem político, o que o Honestino
representa?
Rosa – Ele é o estudante símbolo da UnB. Deixou registrado um
protesto contra tudo. Não se deixou calar.
Portal UnB – Mas o tempo não apagou as marcas...
Rosa – Não. Principalmente, nos meus filhos. Essas marcas são
terríveis. Eu tive de ser um pára-raio. Tenho orgulho e dou graças a
Deus por ter sido mãe dele. Cumpri meu papel ao meu modo.
Portal UnB – Como assim? Por causa da rotina?
Rosa – O dia anterior ao AI-5, 12 de dezembro de 1968, foi o
dia em que ele ficou foragido. Foi para a clandestinidade. Nos dias
em que iam instituir o AI-5, houve um burburinho na cidade. Aí ele foi
embora para Goiânia. Meu marido estava no trabalho, ele trabalhava na
W3 Norte e foi para Taguatinga, pois estávamos montando uma loja. Tínhamos
ficado três noites sem dormir porque eles pegaram o Norton em casa e
ficaram com ele três dias. Eles (o Exército) nos ligaram e mandaram
a gente ir pegar o Norton. Fui buscá-lo. Nessa noite, dormimos. O Monteiro
saiu cedo com o Norton para deixá-lo em proteção. E ainda ficou até
tarde da noite, pois o serviço estava todo atrasado e estávamos perto
do Natal. Dia 17. Atrasou o trabalho que ele estava fazendo na montagem
da loja. Aí ele cochilou e bateu num caminhão e morreu na hora. E eles
ainda se aproveitaram da situação para pegar o Honestino. O pai estava
morto e no enterro havia muitos policiais à paisana. Honestino queria
muito vir. Ele era apaixonado pelo pai. E não o deixaram vir. Mas seria
até melhor porque assim ele seria preso na presença de todos e aí não
poderiam matá-lo.
Portal UnB – A senhora acredita que o acidente foi
provocado?
Rosa – Não. Ele estava com sono. Três dias sem dormir, muito
cansado. Simplesmente dormiu. Foi uma cochilada. É muito rápido.
Portal UnB – A vida da senhora mudou muito depois disso?
Rosa – Olha, o que dizem por aí é verdade: eu sou uma lutadora.
Foi tudo muito difícil, mas na luta fui superando. Eu tinha de proteger
os meus filhos. O Norton foi o primeiro a cair. Fizeram muita coisa
com o Norton. Mesmo depois de prenderem Honestino, ou melhor, depois
de matarem. Eu nunca chorei pelos cantos. Eu choro de alegria. Poucas
vezes eu choro de tristeza. E eu não tenho tristeza. Nossa vida não
começou aqui e nem vai acabar aqui.
Portal UnB – A senhora guarda algum sentimento em relação
ao regime militar?
Rosa – Olha, odiar eu não odeio. Sempre fui muito cristã. Mas
sentir bem também não. No Natal, pedi autorização para vê-lo na cadeia.
Disseram que não estava. Mandaram-no para São Paulo. Foi lá que o mataram,
foi lá que tudo acabou. Esse dia para mim foi um dia de morte. Até então,
eu tinha esperança total. Para mim, eu havia ganho a batalha.
Portal UnB – Se a senhora tivesse uma última chance
de falar com seu filho, o que falaria?
Rosa – Iria abraçá-lo, beijá-lo, fazer todas as coisas que ele
gostava de fazer. A parte mais importante para mim do Honestino é ele,
como filho. Embora, eu ache que o que ele deu ao Brasil foi muito grande
e importante. Até hoje, falo com Honestino. Não sou uma mãe chorosa.
Eu não preciso querer ver meu filho, eu tenho meu filho. Eu estou aqui
e é como se ele estivesse aqui com a gente, naquele retrato, olhando
para nós. Para mim, morte não é morte.
Portal UnB – Como foi paga a indenização?
Rosa – Eu detesto falar sobre isso. Não receberia dinheiro nenhum
em troca do meu filho. Mas eu recebi o troco. Eu não recebi indenização,
mas a Isaura (primeira mulher de Honestino) recebeu. Ela não é a família
de Honestino. Só não se separou legalmente porque eles viviam na clandestinidade.
E pediu mais, e recebeu mais. Um dia eu estava na fila de banco e um
sujeito me parou e disse: "A senhora está boa? Está cheia de dinheiro,
ficou rica, está bem de vida". Eu nunca vendi filho nenhum. E se
a Isaura tivesse conversado comigo para pedir permissão para entrar
na Justiça, eu não daria. O pedido foi feito por ela. Ela entrou com
advogado. Se você me perguntar quanto foi, eu não sei. O que foi feito
com o dinheiro, não sei. As pessoas tinham inveja de um dinheiro que
não recebi e nem receberia. Mãe é mãe e só eu sei tudo o que passei.
É muito sofrimento.
Entrevista realizada pela jornalista Kelly Couto
Da Assessoria de Comunicação
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