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11/10/2009 - CORREIO BRAZILIENSE - DF

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Palavrinhas mágicas

Maria Júlia Lledó

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O que seria do mundo sem o encantamento da palavra? A Revista conversou com pessoas que, em meio à correria do mundo moderno, reservam um momento para o prazer atemporal de se contar e ouvir uma boa história


Maria Júlia Lledó


"Era uma vez." A frase soa como um sino a chamar por Pedro, 10 anos, Bruno, 9, e André, 6. Todas as noites, quando os meninos se arrumam para dormir, sabem que a mãe, a professora Beatriz de Souza Griesinger, 35 anos, contará uma história de aventura ou de arrepiar os cabelos. Assim como Beatriz, outros pais reservam um momento do dia para compartilhar narrativas com os filhos. O hábito desperta os pequenos para o poder da palavra e os põe em contato com a sabedoria e as histórias de vida dos outros. É a magia da tradição oral.

Contar histórias também estimula criatividade e concentração da criança e pode, até mesmo, salvar uma vida. Foi o que aconteceu com o mineiro Roberto Carlos Ramos, ex-menino de rua que sobreviveu a 132 internações na Febem ao mergulhar na imaginação e criar suas próprias aventuras. Adotado pela pedagoga francesa Margherit Duvas, Roberto formou-se em pedagogia e tornou-se um contador de histórias mundialmente conhecido. A trajetória do pedagogo instigou o cineasta Luiz Villaça a produzir O contador de histórias, filme que chegou às telas em agosto passado.

No Distrito Federal, crianças que não têm esse momento de fantasia em casa ou na escola podem encontrá-lo no grupo Roedores de Livros. Aos sábados, meninos e meninas se reúnem no jardim de uma creche em Ceilândia para ouvir os contadores Ana, Tino e Edna. O trio aconselha: quem não tem o costume e gostaria de compartilhar com filhos e amigos o encantamento por Chapeuzinho Vermelho, Patinho Feio e outros contos pode começar a brincadeira do "era uma vez".


Senta, que lá vem história

De longe, a televisão anuncia que vai começar o telejornal. É nesse momento que a professora Beatriz de Souza Griesinger se prepara para "viajar" com os filhos por terras distantes e encantadas. Ela bate na porta e anuncia: "Senta, que lá vem a história". No quarto, Pedro, Bruno e André já sabem que devem estar de pijama e com os dentes escovados. Logo em seguida, os meninos reivindicam: "Hoje mamãe fica comigo".

Decidido em que cama vai sentar, Beatriz começa a ler uma história também escolhida por sorteio. "Tem um que gosta de história com pontinha de medo, outro escolhe uma pela gravura. Como a turminha é grande, acho que eles também aprendem a repartir a atenção", acredita.

O momento compartilhado com os filhos é sagrado. Nada de interrupções por causa da TV ou telefonemas. Na opinião dos meninos, esse não é só um espaço para escutar, mas também para ficar mais perto da mãe. "Gosto, porque quando vou deitar e ela chega para ler, me sinto mais calmo", conta Bruno, que adora uma coleção de livros sobre folclore.

Beatriz, quando criança, também escutava muitas histórias da mãe e da avó. Recordação que guarda com carinho e, por isso, repete o costume com os filhos. A exemplo das mestras, a professora prepara a leitura antes de levá-la ao quarto das crianças. "Saber contar é uma arte. Tem dias que você conta duas histórias e eles acham pouco, outro dia acham que é demais. Você tem que saber dosar, mudar a voz dependendo dos diálogos e incrementar um pouquinho", aconselha.

Dias mais puxados no trabalho ou em casa poderiam desanimar a professora, mas, à noite, sempre há espaço para um final feliz. "Mesmo que eles ainda não tenham essa voracidade por leitura, já planto uma sementinha", aposta.



Entrevista » Luiz Villaça, diretor de TV, teatro e cinema
Filminhos na cabeça

"Todo cineasta é um contador de histórias", define Luiz Villaça, 43 anos. O diretor sabe do que está falando: sua mais recente produção, O contador de histórias, reconstitui a vida de Roberto Carlos Ramos, ex-menino de rua que deu a volta por cima com a ajuda da imaginação. O terceiro longa de Villaça guarda muitas semelhanças com o programa Retrato falado, exibido com grande sucesso no Fantástico durante cinco anos. Nesta entrevista, Villaça conta como o quadro - protagonizado por sua esposa, a atriz Denise Fraga - o despertou para o talento do brasileiro comum.

Como surgiu a ideia de fazer um filme sobre Roberto Carlos Ramos?
Contando uma história (risos). Estava narrando O contador de histórias (Ed. Leitura), livro do Roberto, para colocar meus filhos para dormir. Fui contar as histórias para eles e vi que a última era sobre a vida do Roberto. Aquilo me cativou e quis fazer um filme. Me encantou muito poder mostrar a história dele. Depois, entrei em contato com Roberto e falei sobre a ideia de fazer um filme. Na mesma hora, ele me falou que havia chegado dos Estados Unidos, de um encontro de contadores, e que lá comentaram o mesmo desejo. Encarei como mais um sinal: esse filme deveria rolar. Tive a chance de vê-lo em ação e fiquei encantado ao ver mais de 800 crianças olhando para ele, atentas.

O quadro Retrato falado foi um grande sucesso. Qual foi a importância desse projeto?
Acho que o Retrato falado teve sucesso e, mais do que isso, mostrou para todo mundo que todos temos uma história boa para contar. Ver anônimos contando suas próprias histórias é a grande importância do Retrato, a grande lição. Achava muito bom ter na TV, a cada domingo, alguém que nunca vimos mostrar o talento que o brasileiro tem de contar casos com humor. Mesmo que esse fosse algum momento doloroso ou de constrangimento.

Por ser cineasta, você também é um contador de histórias.
Eu também me sinto um contador de histórias. No caso do filme e do Retrato, conto as histórias dos outros. Minha linguagem, no entanto, não é tanto oral. É a imagem, a edição. Conto histórias pelas câmeras.

Em casa, você e Denise costumam contar histórias aos seus filhos?
Contamos. Agora que eles estão um pouco maiores - um tem 12 e outro tem 10 anos -, acabou um pouco isso de botar na cama e contar uma história. Mas sempre inventei histórias, as mais absurdas do mundo. A criança tem isso de fantasiar. Tem dias que eles vêm me contar aventuras que misturam Bin Laden, Bush e monstro do Lago Ness. Morremos de rir.


Jardim das maravilhas


Acompanhadas por suas sacolas azuis, em que guardam os livros, as crianças chegam aos poucos à Creche Comunitária da Ceilândia. É sábado de manhã - "dia de história e lanche", fazem coro. A professora Edna Freitas, do grupo Roedores de Livros, traz uma caixa de contos e fábulas. "Vamos montar a casa no jardim?" As crianças prontamente saem para ajudá-la a abrir um tapete no gramado e espalhar livros de lobos, príncipes, princesas e dragões. A imaginação se encarrega de fantasiar as paredes e a porta de entrada para a "casa da leitura".

As crianças - 14, entre 8 e 12 anos de idade - esperam ansiosamente pela tia Ana. Artista plástica responsável pelo projeto Oficinas Pedagógicas na Secretaria de Educação do GDF, Ana Paula Bernardes, 39 anos, não gosta do título de contadora de histórias. Prefere o termo mediadora da leitura. Quando ela chega, as crianças se aproximam para ouvir a história do ursinho apavorado e do menino que tem medo do ridículo.

Começa a diversão da palavra escrita até a chegada do músico Tino Freitas, 37 anos, para contar causos com a ajuda de notas musicais. Na roda, meninos e meninas escutam, perguntam, brigam pelo próximo livro a ser lido. Ao final, depois do lanche, levarão para casa um livro e prepararão a leitura para os colegas no próximo encontro.

Esse encantamento pela literatura, visível no comportamento da turminha, é resultado de um trabalho de cinco anos dos Roedores de Livros. No começo, o grupo contava histórias no Açougue Cultural T-Bone. Há dois anos, mudaram as atividades para Ceilândia, onde continuam conquistando a atenção da garotada. "Se a história for boa, ela põe todo mundo no bolso", acredita Tino. Até os pais de algumas crianças já ouviram os Roedores e se emocionaram. "Isso porque todo mundo guarda a infância dentro de si", acrescenta o músico.

Para Ana, as historinhas permitem que as crianças deem asas à fantasia, melhorando o raciocínio. "Também vemos que há uma maior socialização entre elas. Alguns bem calados tornaram-se os mais falantes", observa. O objetivo dos Roedores de Livros é familiarizar as crianças com a leitura, permitindo-lhes uma melhor interação com bibliotecas e livrarias. "O amor pelo livro precisa ser incentivado", constata Ana, enquanto fecha a caixa com livros e dá o último aviso às crianças: "Sábado que vem tem mais".



Nada de bicho-papão

Mães e pais, não se preocupem se seus filhos tiverem amigos imaginários. É o que revela uma pesquisa da Universidade de Otago
(Nova Zelândia), publicada em agosto. Segundo os pesquisadores Gabriel Trionfi e Elaine Reese, as crianças que tinham amigos criados pela fantasia apresentavam maior capacidade narrativa. Como se fossem contadores de histórias mirins, os pequeninos colocavam em prática vocabulário e capacidade para recriar desde episódios reais, como um passeio com a família, até ficções elaboradas, com ajuda de brinquedos. Em nota divulgada no site da universidade, os pesquisadores explicam que a capacidade das crianças para contar histórias é um forte indicador de sua futura capacidade de leitura.



Contar histórias.

» Estimula a criatividade da criança;
» Reforça o laço afetivo com os pais;
» Trabalha a concentração;
» Cria o hábito de sentar e escutar;
» Estimula a leitura;
» Traz conhecimento.



Mestres da vida


Rodas de histórias podem mudar uma vida. Quando menina, a mineira Alessandra Garcia Trindade ouvia isso. Bastava o pai começar a contar mais um "causo". "É preciso sonhar para a vida ter sentido", contava o pai à filha, que se tornou consultora cultural e escritora. Inspirada na cena que a marcou quando criança, Alessandra, 38 anos, mergulhou num tema completamente diferente da última obra, Cachaça - um amor brasileiro (Ed. Melhoramentos), mas ainda com sotaque de Minas Gerais.

Dessa vez, a ideia era coletar depoimentos de homens e mulheres de variados perfis, com um fator em comum: os cabelos brancos da sabedoria. O livro ganhou o nome Mestres do tempo - Relatos do século 20 para viver o século 21 (Ed. Gente) e foi lançado em setembro. "Os idosos não têm o espaço que merecem no país. Por isso, ao contar as histórias desses brasileiros, quis mostrar que a pessoa ao seu lado pode ser um mestre", explica a autora.

Com ajuda da indicação de amigos, Alessandra percorreu seis estados do país (MA, TO, MG, RJ, SP e BA) e o DF atrás de personagens, como o senhor José da Costa Silva, que aos 89 anos aprendeu a ler e a escrever. E dona Chlóe Siqueira, 82 anos, que define sua vida AC/DC: antes e depois do computador. O livro ainda traz belos depoimentos de Altamiro Carrilho, Inezita Barroso e Dona Canô, mãe de Caetano Veloso e Maria Bethânia.

O resultado é uma coletânea de histórias de 25 mestres que souberam se reinventar ao longo da vida. "Quando você conta uma história, você faz a pessoa sonhar", diz a autora, que pretende fazer circular pelo Brasil 100 publicações numeradas e doadas por ela, sob uma condição: o livro não pode parar numa gaveta ou estante empoeirada. Um desses exemplares, quem sabe, pode cair na sua mão. Detalhes sobre o projeto no site www.mestresdotempo.com.br.



Qual é a sua história?

Essa é a pergunta que milhares de pessoas em todo o mundo fazem em 16 de maio, Dia Internacional de Histórias de Vida, instituído em 2007, com apoio da Unesco. A ideia partiu da rede internacional de Museus da Pessoa (Brasil, Portugal, Canadá e EUA) e do Center for Digital Story Telling (EUA). A data foi escolhida em homenagem ao radialista e historiador Studs Terkel (1912-2008). Filho de russos judeus, Terkel nasceu em Nova York, onde ficou conhecido por comandar o The Studs Terkel Program, programa diário de entrevistas que foi transmitido de 1952 a 1997. No estúdio, Terkel recebia ativistas políticos, escritores e celebridades da música, como Bob Dylan. Autor de livros que traçam o perfil dos norte-americanos do século 20, Terkel se definia um defensor da história oral. Segundo a professora Eleonora Zicari, do Departamento de História da UnB, o uso de fontes orais pelos historiadores vem crescendo nas últimas décadas. "As histórias de vida são hoje fundamentais para que os historiadores possam se aproximar das práticas cotidianas que informavam os valores e organizavam a vida de homens e mulheres", explica.



Sugestões dos Roedores de Livros

A partir dos 3 anos
Até as princesas soltam pum
(Ilan Brenman, ilustrações de Ionit Zilberman, Ed. Brinque Book)
28 páginas, R$ 27,50.

A partir dos 6 anos
Felpo Filva
(Eva Furnari, Ed. Moderna)
56 páginas, R$ 27,90.

A partir dos 8 anos
Os bichos que tive
(Sylvia Orthof, com ilustrações de Gê Orthof, Ed. Salamandra)
74 páginas, R$ 27,90.

A partir dos 10 anos
Figurinha carimbada
(Márcio Araújo, ilustrações de Renato Alarcão, Ed. Girafinha)
128 páginas, R$ 19.

Fotos: Livraria Cultura/Divulgação

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