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ELEIÇÕES AMERICANAS - 14/10/2008

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Obama e a despolarização do mundo

Eduardo Viola e Patrícia Carlos de Andrade


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O mote da campanha do candidato democrata à presidência dos Estados Unidos, Barack Obama, – “mudança na qual podemos acreditar” –, não poderia ser mais clichê. Todo político promete mudanças e afirma que suas promessas serão cumpridas. Mas, no caso de Obama, a frase “colou” porque o fator mudança é central neste momento, nos EUA e no mundo, e ele convence como alguém capaz de capturar profundamente seu significado.

Enquanto o candidato republicano, John McCain, se formou na sociedade industrial, nacional e ideológica, Obama é filho da sociedade do conhecimento, globalizada e pós-ideológica e símbolo da mobilidade social. Sua juventude representa bem mais do que apenas maior energia. Ela sugere abertura cognitiva muito maior para perceber as grandes transformações de seu tempo e agir com velocidade.

O sucesso fenomenal das iniciativas da campanha do candidato por meio da internet é apenas um entre os sinais da visão dinâmica de alguém que compreende e opera novas possibilidades. Não se conclui daí, necessariamente, que ele será um grande presidente – as incógnitas de um homem jovem e carismático, herdeiro de visão bastante intervencionista do Estado, que foi pouco experimentado diante de importantes decisões, estão presentes em Obama.

Como candidato, porém, ele é sinal da consciência que a sociedade americana tem de si como uma sociedade em transformação. A palavra “mudança” transmite a mensagem de que ele compreende profundamente o mundo atual, ao contrário da retórica vazia que seus adversários querem atribuir-lhe.

É possível afirmar que, se eleito, Obama cumprirá sua promessa, como agente de mudanças? A resposta é sim, em vários aspectos.
Obama reconhece a ascensão do restante do mundo em relação ao poder americano e não a considera negativa. Encara o processo não como uma derrota da civilização americana, mas como produto de inevitabilidade demográfica: o crescimento de padrão de vida do resto do mundo no modelo que triunfou nas guerras quentes e na fria do século 20 – economia de mercado e democracia representativa. Vê, portanto, a capacidade dos EUA de definirem por si a dinâmica do mundo, hoje, como muito limitada.

Se eleito, deve propor política de segurança global menos militarista e mais multilateral – buscando engajar, além dos aliados tradicionais, os amigos indianos, brasileiros e sul-africanos e os adversários chineses e russos – e recuperar o pleno respeito das liberdades civis, internamente, e dos direitos humanos, internacionalmente. Focará na retirada gradual do Iraque, na mudança de abordagem no Afeganistão e na séria mediação da paz entre israelenses e palestinos. Tentará, como já disse, diálogo com o Irã, que, se bem-sucedido, poderá resultar em estabilização geral no Oriente Médio. Há muitas incógnitas, mas que ele tentará, é certo.

Pela primeira vez em várias décadas, haverá uma nova política energética nos EUA: forte estímulo às energias renováveis já estabelecidas (hidrelétrica, eólica, solar e biocombustíveis), incremento dos fundos federais na pesquisa de novas tecnologias decarbonizadas (hidrogênio, captura e seqüestro de carbono fóssil, etanol de celulose, energia das marés), retomada da construção de usinas nucleares, renovação da malha de transmissão elétrica, substancial aumento dos padrões de desempenho dos veículos e grande expansão dos carros híbridos.

Obama buscará menor dependência do suprimento de petróleo do Oriente Médio e dará ênfase à integração energética nas Américas. Pode-se esperar um incremento da taxação das empresas petroleiras e a criação de um mercado generalizado de carbono, com o estabelecimento de uma política nacional de “caps and trade” – estabelecimento de tetos para emissão de carbono pelas empresas e um mercado para compra e venda de cotas de carbono –, tendo como exemplos os sistemas que estão sendo implantados na Califórnia e na Nova Inglaterra.

Obama e McCain, ao contrário de George W. Bush, consideram que os EUA têm de reduzir as emissões de carbono e liderar, juntamente com a União Européia e o Japão, um grande acordo global para diminuir os efeitos da mudança climática, com duas condições: negociação estratégica ampla com os outros grandes emissores – China, Índia, Rússia, Brasil e Indonésia – e todos os países desenvolvidos terão de reduzir emissões muito mais acentuadamente que os outros, transferindo tecnologias decarbonizantes ao resto do mundo.

Hoje, nossas relações com os EUA são muito maduras, por nos termos consolidado como democracia de mercado. Ainda existem, no entanto, entre formadores de opinião brasileiros, visões específicas e por vezes distorcidas da sociedade americana. Diplomatas e a elite econômica tendem a formar seus julgamentos em função do grau de liberalização comercial. Por esse prisma, Obama representará continuidade, pois não deverá haver nenhum avanço nesse campo.

Na visão de ONGs, as questões centrais são a proteção internacional dos direitos humanos e do meio ambiente. Por esse ângulo, apesar de possível resistência à promoção da energia nuclear, a percepção da política de Obama será de virada favorável.

A terceira visão, mais comum entre militares e alguns diplomatas, é a de questões de segurança. Nesses grupos poderá haver desconfiança pela ênfase de Obama na mudança climática e julgamento negativo de sua política externa, por causa da paranóia sobre a soberania na Amazônia. Independentemente de visões particulares, estamos hoje muito mais bem preparados do que em outras eleições americanas para debater nosso interesse nacional e como ele se relaciona com o interesse nacional norte-americano e com o interesse geral da humanidade.

 

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PERFIL

Eduardo Viola é professor titular do Instituto de Relações Internacionais (Irel) da Universidade de Brasília (UnB). Especialista em Relações Internacionais pela Fundacion Bariloche (FB, Argentina), mestre em Sociologia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP) e pós-doutor em Economia Política Internacional pela University of Colorado (EUA).

Patrícia Carlos de Andrade é economista, mestre pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ). Trabalhou como analista de economia e política nos bancos Icatu e JPMorgan. Em março de 2005 passou a se dedicar, como diretora executiva, à construção do que hoje é o Instituto Millenium, um centro de estudos, pesquisa, divulgação e formação em assuntos públicos de governo, política, economia, sociedade e cultura.